Profundamente

Como Drummond sou Fazendeiro de Ar. Meu roçado é de palavras, meu gado de ilusão (que foge continuamente na forma de amarga desilusão, verdadeiro e natural sentimento do mundo). Recolhido em minha campânula de vidro sigo meus dias protegido desse mundo ruidoso. Mas conforme meu poeta-patrono de tudo fica um pouco e esse mundo que…

Aula Inaugural no São João (Borges e Quintana)

Para Quintana, poeta e menino de aquário protegido como eu dos ruídos desse mundo intenso, a dança, como a poesia, apresentava-se como um luzeiro de esperança no oco do tenebroso da existência. Ritmo e poesia acendiam-se iluminando uma vereda na contramarcha do abismo. Somados, dança e verso (em sua tradição eminentemente oral) encontramos a música….

Otacília, Diadorim, Nhorinhá… Diadorim

“Toda moça é mansa, é branca e delicada. Otacília era a mais. Mas, na beira da alpendrada, tinha um canteirozinho de jardim, com escolha de poucas flores. (…) E essa flor é figurada, o senhor sabe? Morada em que tem moças, plantam dela em porta da casa-defazenda. De propósito plantam, para resposta e pergunta. Eu…

Cartas, Telegramas e outras Memórias

Organizando minha velha caixa de correspondência redescobri que, até a invenção de e-meio (o meio virtual composto por emails, blogs, microblogs, redes sociais e demais recursos que simulam uma proximidade que é, no máximo, meia) alguns dos eventos fundamentais da minha e de muitas vidas foram prenunciados por carta e anunciados pelo grave telegrama. Desde…

O Silêncio em Três Poemas (por Drummond)

Folheando o “Discurso de Primavera e Algumas Sombras“, um livro indevidamente pouco recordado no conjunto geral da extraordinária poesia do meu querido Drummond, me deparei “casualmente” com o que chamei pessoalmente de uma Trilogia do Silêncio. Um conjunto de três belos poemas sobre a dialética entre silêncio e palavra com os títulos de: “A Palavra…

O Homem de Cabeça de Papelão (por João do Rio)

“No País que chamavam de Sol, apesar de chover, às vezes, semanas inteiras, vivia um homem de nome Antenor. Não era príncipe. Nem deputado. Nem rico. Nem jornalista. Absolutamente sem importância social. O País do Sol, como em geral todos os países lendários, era o mais comum, o menos surpreendente em idéias e práticas. Os…

João Passarinheiro (por Mia Couto)

“Inquirido sobre a sua raça, respondeu: – A minha raça sou eu, João Passarinheiro. Convidado a explicar-se, acrescentou: – Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual. Cada homem é uma raça, senhor polícia. (Extracto das declarações do vendedor de pássaros).” O excerto acima, narrado pelo fictício João Passarinheiro, foi criado pela…

Chico e Pedro

Chico Buarque não é o maior compositor de nossa história. Ele próprio, em  entrevista concedida há alguns anos e transformada hoje em DVD, reconhece o inegável: é  Noel Rosa, dentre todos os seus pares, aquele que elevou a música até o ápice de sua forma técnica com seus micro-contos feitos no ritmo do samba que…