Aula Inaugural no São João (Borges e Quintana)

Forró (Pelo xilogravurista e cordelista J. Borges)

Para Quintana, poeta e menino de aquário protegido como eu dos ruídos desse mundo intenso, a dança, como a poesia, apresentava-se como um luzeiro de esperança no oco do tenebroso da existência. Ritmo e poesia acendiam-se iluminando uma vereda na contramarcha do abismo. Somados, dança e verso (em sua tradição eminentemente oral) encontramos a música. Música, dança e verso embalaram as noites sem fim do Sertão de minha infância perdida. Os baús dos fundões da minha memória pessoal abrem-se depositando no presente a recordação nítida de que nas juninas festas dançava-se como um gesto desesperado de um socorro urgente. Dançava-se no anelo pelo um, jogava-se o jogo do ausente de modo limpo na certeza de, com o corpo, estar se escrevendo uma resposta clara e própria ao apelo do Ser. Hoje, nas palhoças massificadas, numa multidão sem fim e sem nome, dança-se de modo indistinto e triste. Casais sombrios dançam sobre as próprias tumbas para abafar a foz que de dentro se lhes lança um apelo… uma razão de esperança seja, talvez, pensar que mesmo isso representa uma posição existencial e uma modalidade de resposta.

AULA INAUGURAL

“É verdade que na Ilíada não havia tantos heróis como na guerra
do Paraguai…
Mas eram bem falantes
E todos os seus gestos eram ritmados como num balé
Pela cadência dos metros homéricos.
Fora do ritmo, só há danação.
Fora da poesia, não há salvação.
A poesia é dança e a dança é alegria.
Dança, pois, teu desespero, dança
Tua miséria, teus arrebatamentos,
Teus júbilos
E, Mesmo que temas imensamente a Deus,
Dança como David diante da Arca da Aliança.
Mesmo que temas imensamente a morte
Dança diante de tua cova.
Tece coroas de rimas…
Enquanto o poema não termina
A rima é como uma esperança
Que eternamente se renova.
A canção, a simples canção, é uma luz dentro da noite.
(Sabem todas as almas perdidas…)
O solene canto é um archote nas trevas.
(Sabem todas as almas perdidas…)
Dança, encantado dominador de monstros,
Tirano das esfinges,
Dança, Poeta.
E sob o aéreo, o implacável, o irresistível ritmo de teus pés,
Deixa rugir o Caos atônito…”

(por Mário Quintana em Apontamentos de História Sobrenatural.
Porto Alegre – Ed Globo, 1975, pag. 24-25)

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Sobre Pedro Gabriel

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