Sonoleneto n° -1 ou o Pedágio do Sono

Caronte (Ilustração de Gustave Doré feita para A Divina Comédia de Dante)

No canto do dia
a letra cúmplice
desenha-se em poesia.

Em artífice gozo
massacro meu corpo
já sem energia.

Caronte com o verso
requer seu denário
mal soldo diário
preço do descanso

Quer sono, Poeta?
Bem caro Isso custa.
Escreve, cala tua cuca,
Deita, descansa.

 

(Recife, 10 de Dezembro de 2011, aniversário de 91 anos de Clarice Lispector)

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Sobre Pedro Gabriel

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8 respostas para Sonoleneto n° -1 ou o Pedágio do Sono

  1. Aline disse:

    Os poemas existem apesar de nós. Ao poeta cabe a tarefa de dar-lhe vida. Beijo, Pedro.

    • Pedro Gabriel disse:

      Oi Aline, grato pelo seu comentário que me fez lembrar da impressão poética de Ferreira Gullar quando tomado pelo impacto da notícia da morte de sua amiga Clarice Lispector. Ele escrevera, pensando na fugacidade da vida em contraste à eternidade da poesia, que “as pedras e as nuvens e as árvores no vento mostravam alegremente que não dependem de nós.” Beijo, Aline.

  2. Aline disse:

    Nossa, essa poesia é matadora, Pedro. A realidade existe mesmo sem nós, talvez seja essa nossa maior dor. Beijo.

    • Pedro Gabriel disse:

      Precoce Aline, entenda que de minha parte não me considero um naturalista de modo que a despeito da beleza da produção dos que assim se compreendem, não cogito uma realidade dissociada de nosso modo singular de ver. Penso um pouco como Drummond que disse certa vez que “quando eu morrer, morre comigo um certo modo de ver” (numa expressão enganosamente simples). Evaldo Coutinho, filósofo e poeta, disse que a morte é um naufrágio onde afundam o barco e também as águas. Compreendes meu ponto? Beijos. Pedro.

  3. Aline disse:

    Concordo em parte, até porque és tão envolvente com as palavras que não há outra saída senão concordar (ao menos em parte). Sem dúvida, quando morremos “morre certo modo de ver” mas, mesmo quando não fizermos mais parte da realidade, continuarão lindos o mar, o inverno, o sol…tudo na mais perfeita ordem. Os livros continuarão sendo publicados, as novelas recomeçarão na segunda-feira… Ainda penso como Adélia Prado: “Descobri que a seu tempo vão me chorar e esquecer”. Beijos, Pedro. (ps.: a conversa tá boa rss)

    • Pedro Gabriel disse:

      Perspicaz Aline… quando formos mar, inverno e sol continuarão lindos… pra quem? Você me fez lembrar de uns poemas de Bandeira sobre o que ele chamava de a morte definitiva que certamente entrarão neste Blog. 🙂

  4. Fernanda disse:

    Vou me meter na profunda e elaborada conversa de vocês para dizer o óbvio mas, principalmente, para dizer que Viviane, do Amor em Pedaços & Versos, estava redondamente enganada quando me disse: “Pedro não escreve poesias”, a propósito de eu ter lhe indicado sem o seu consentimento como coloborador dela naquele blog.
    E Aline, concordo contigo: esse moço é tão hábil com as palavras que dificilmente nos resta algo que não seja concordar com ele.
    Abraços mineiros aos dois,
    Fernanda.

    • Pedro Gabriel disse:

      Fernanda e demais amigas mineiras. Grato pelas palavras e pela consideração. Se eu dia eu realizar o sonho de produzir um livro de lituras, vocês figurarão como algumas das principais colaborações no preparo deste material. Tem sonho que não se faz sozinho e esse blog é um deles. Sejam sempre muito bem vindas. 🙂

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