Espreitação Bovina

Drummond imagina um simples boi que, de sua ruminação paciente e silenciosa, observa nossa agitação. Sobretudo nesses carnavalescos tempos onde a multidão esconde sua solidão regredindo à ancestralidade da tribo e do totem (que em última instância é o que esse Carnaval evoca) e segue errando e errante diluídos, dispersos e disformes nesse desespero ruidoso é que esse poema encontra sua impressionante atualidade. Eis a nossa lastimável forma, que a imaginação poética permitiu ser desenhado por uma figura ascética e imparcial. O boi Outro, o boitempo que reside em nós.

 

UM BOI VÊ OS HOMENS (por Carlos Drummond de Andrade)

“Tão delicados (mais que um arbusto) e correm e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos de alguma coisa. Certamente falta-lhes não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres e graves, por vezes.
Ah, espantosamente graves, até sinistros.
Coitados, dir-se-ia que não escutam nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço.
E ficam tristes e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos –
e perde-se a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pêlos, nos extremos de inconcebível fragilidade, e como neles há pouca montanha, e que secura e que reentrâncias e que impossibilidade de se organizarem em formas calmas, permanentes e necessárias.
Têm, talvez, certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido vazio interior que os torna tão pobres e carecidos de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós), sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.”

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Sobre Pedro Gabriel

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6 respostas para Espreitação Bovina

  1. No rastro dessa bela leitura, quereria não lastimar, mas crer em pequena dose,seja na reunião humana, ou mesmo no laço de amor, laço de dois.Mas me causou mesmo, foi a leitura de “no rastro da tristeza chegam à crueldade”.Tentei evitar a tristeza, tentei evitar a crueldade.Tentei não ruminar.Pensei no sublime e logo, em sublimação. Fazer a coisa mais bonita.Contudo, esse caminho conduz também à crueldade, pois Sublimação pode estar nas proximidades da Perversão, no excesso que muge ao sujeito.Nosso feno, tem mesmo o gosto do desejo irrealizável, do amor e suas entranhas, diria , do ciume de espelho, da dor de existir e seja de que mais aqui se reclamar.Mas, como a poesia não engana e não se extingue como escrita necessária a quem mordido está, vacinado, também o poeta, não deixou nem de escrever, nem de amar.Pedro Aflito, o poeta amou, sei disso!!

    • Pedro Gabriel disse:

      Cecília, diferentemente da Grande Boiada que hoje se apinhou no Galo da Madrugada, nosso repasto é interior. Aspiramos sempre a uma outra mesa. Pra nós não há feno, há uma ceia enorme em nosso coração. Continuando a furtar Drummond: tudo em nosso coração é ceia.

  2. A maior fantasia coletiva que conheço, todos esses meses para começar acordar e para variar já e´um pouco tarde demais.

  3. Marijô disse:

    “Tão delicados (mais que um arbusto) e correm e correm de um para o outro lado,”
    ” que impossibilidade de se organizarem em formas calmas, permanentes e necessárias.”

    Difícil ruminar Drummond sem Drumond.
    Verdadeiro esse olhar, triste, condescendente até.
    Em tempo de festa esquecer-se de si, carnavalizar-se é quase lei, de fora pra dentro: a ceia de confete e serpentinas está servida, de graça!
    Ruminar pra que? Isso é tarefa pra quem tem aspirações de dentro pra dentro, para outros carnavais que podem acontecer o ano inteiro.

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