Saudades do Carnaval

Carnaval
Carnaval

O poeta Ascenso, no ventre de sua poesia, registra em relação aos dias momescos a mesma saudade que vejo ir embora junto com o colorido dos papéis que esvoaçam picados: a nostalgia. Saudades não do Carnaval (que está aí), senão do “Meu Carnaval”. O que se fez do Carnaval? Do nosso Carnaval, poeta Ascenso? O que é isso que hoje se brinca sobre o sagrado nome de Carnaval? O Arlequim da Commedia dell’Arte, Palhaço e escravo que vestia-se de remendos, transformou-se no rapaz musculoso que distribui provocações em busca do embate corporal e beijos roubados à força. As mascaras que obturavam as diferenças sociais e emulavam uma ocasional e bem vinda igualdade transformou-se num abadá que divide as massas e nos afunda ainda mais no abismo social que passa a isolar também os brincantes. Pierrot e Colombina não vagam mais apaixonados, transidos de suspiro e da esperança da definitiva consolação amorosa, em seu lugar permanecem os casais de encontro fácil, sem fantasia e sem motivos (mas com preservativos como ordena hipnopedicamente o Governo) para o sexo fácil e vulgar. A água perfumada com laranja-de-cheiro se transformou num mela-mela inconveniente e provocativo na melhor das hipóteses de água somente. O novo Carnaval se é ruim para a alma é excelente para os negócios e isso parece bastar. Não é mais uma festa pra quem deseja sonhar com um mundo diferente e menos inconveniente, mas um encontro de bêbados impertinentes que se transformam em consumidores autorizados pelo Poder Público a fruir do que de pior existe em nossa Cultura e por ele deveria ser erradicado (no mínimo regulado). O Carnaval atual, diz o poeta, Ascenso, “só resume tremendo delírio de gozo exterior” e eu que não saio de dentro de mim pra nada, muito menos o farei para frevar.

[Meu Carnaval, escrito por Ascenso Ferreira e narrado por Chico Anysio]

8 comentários Adicione o seu

  1. Marijô disse:

    Pedro, aquele Carnaval no bem dizer do poeta Ascenso, virou alcanfor.
    Foi-se. Como se foram as batalhas de confete, águas de cheiro e talco. Brincar? Nem pensar, o ócio foi expulso para a instalação do mais puro negócio. Bom seu texto, ouvir o poeta por Chico Anysio. Bom Carnaval dentro de você!

    1. Pedro Gabriel disse:

      Marijô, bom ser bem lido. Você já faz parte desse blogócio.

  2. Carla disse:

    E a pessoa PAGAR por uma fantasia?? É muita falta de imaginação….

    1. Pedro Gabriel disse:

      Falta de imaginação é somente o mais simples dos problemas dessa época. 😉

  3. O que é só nosso não sobrevive.

    1. Pedro Gabriel disse:

      Poeta, o verso fala de um sentimento que embora pertença a uma minoria não é exclusividade de um só. Sobre sentimentos singulares sou da opinião que o que nos mantém vivos (independentemente de sua permanência ou não) é o que é nosso só.

  4. Kleber Prince disse:

    Olá, Pedro,

    Vi seu texto sobre Clarice no Amalgama.blog.br e me peguei visitando aqui após ler seu texto lá. Muito bom, gostei!

    Posso add seu site na lateral do meu?

    Abraços,

    Kleber

    1. Pedro Gabriel disse:

      Prezado Kleber, reiterando o que disse por email, seu pedido muito me honra. Fique à vontade. Visitarei agora mesmo o seu blog.

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