Satiricômico ou As Deliciosas Marteladas do Analista

Comédia é uma palavra mergulhada em trevas. Empapada de indefinições quanto ao seu sentido originário, há uma tendência filológica à recusa do termo homofoneticamente mais simples: associá-la ao comoedia latino. Abdicando ao simples e mergulhando (de onde é sempre bom partir) nas indefinições gregas, obteríamos de saída um impasse quanto à cacimba da palavra: se viria de kômos (festa anual dedicada a Baco onde os participantes, bêbados, entoavam os cantos fálicos) ou kômas, termo grego para aldeia, pois conforme a poética de Aristóteles os comediantes carregavam no nome a sua  própria errância: expulsos das cidades (onde não eram prezados), vagavam de aldeia em aldeia executando sua arte. Ambas as possibilidades são muito expressivas do que seria radicalmente a comédia (do solo de horror no qual se afundariam suas raízes).

Independentemente dos embates acerca de por qual cascata desceu o termo, a história nos mostrará um comediante como sendo um pária por expressar, em seu gênero, o ridículo da condição humana. Comparado às crianças e aos loucos, trazia à tona as nossas costumeiras contradições deixando caírem as máscaras que se usavam no exercício rotineiro da circulação na pólis (e que não diferem tanto das que hoje usamos na lida dentro das nossas Cidades). Marginal entre os seus, expulso das cidades, o comediante praticava a sua arte provocando a suprema arte da sublimação: que está em não crer nas mentiras que se encena e saber-se ridículo, risível. A comédia apontava então para um núcleo de desconhecimento presente em cada ouvinte, era de si mesmo que se ria e, neste processo, gargalhava-se do ridículo mesmo de se estar na aldeia.

O que argumentamos aqui é que nem tudo envelhece bem. A comédia, por exemplo, envelheceu muito mal. O tempo e os homens se encarregaram de obscurecer o que ela tinha de evocadora de real para transformá-la numa pantomima vulgar onde o humor de tipos é sua mais deturpada expressão (como os praticados tão fartamente no Nordeste desse aglomerado que nós, cinicamente, chamamos de Nação). Longe de ser provocadora de divertimento, de gerar riso fácil, a comédia sempre se propôs a ser sobretudo satírica: o uso livre, ousado e reformador do ridículo.

Havia algo de incontornavelmente esperançoso na Sátira, pois nela estava a aposta de que o riso poderia ser um turning point para que a sociedade pudesse se aprimorar à medida que fosse tomando consciência de suas contradições e fracassos institucionais. Nesse momento peço para que não compreendam que alinho o Sátiro a um moralista. Dizer que há esperança na comédia não equivale a dizer que há um modo ótimo de se enlaçar socialmente e que o comediante seria o agente transformador de uma sociedade perfeita. Basta meio segundo de convivência com os homens para se ter a certeza de que esse mundo não tem jeito enquanto eles estiverem presentes.  O comediante não tinha esperança num acerto final (numa espécie de “Fim da História”), o que não o impedia de fazer suas intervenções para que algo se movesse, para que um núcleo de repetição encontrasse novas formas de acontecer. Nesse momento pisco um dos olhos discretamente para alguns leitores que certamente notaram aqui uma espantosa semelhança com o que faz o psicanalista que pode usar o humor como forma de intervenção a fim de que uma análise avance. Ela sempre deslinda quando não se enche o analisante de sentidos e explicações, mas quando se consegue explodi-los. A desordem que provoca o riso dialoga com o real no que fere a inteligência e não percorre seus trilhos. Um belo modo de esburacar o imaginário de tanto sofrimento quase sempre gratuito presente nos neuróticos.

Séculos mais tarde o psicanalista Jacques Lacan dirá que um possível fim para uma análise estaria em poder rir da própria tragédia. Ouso então argumentar que o analista hoje é o Sátiro da Antiga Grécia, aquele que fere sentidos e reinventa o outro com uma martelada que às vezes causa choro e outras risos. Mas dói invariavelmente (como a boa comédia).

Post Scriptum:Nosso cotidiano vem sendo satiricamente achincalhado por excelentes comediantes stand up que conseguem, repetindo um pouco desse movimento arcaico, dar ao ouvinte o desespero de si e do seu modo de vida. Nascido na contra cultura americana tem na figura de Gerge Carlin sua principal expressão. Hoje temos bons praticantes da “comédia em pé” (tradução muito feliz do gênero) e em Recife possuímos o Murilo Gun (em franca atividade por todo o país). Esses comediantes muito saudavelmente satirizam o cotidiano e nele os seus tipos característicos sem ceder aos apelos morais que querem censurar a comédia. Repetem, sem saber, o vaticínio de um certo estudioso da Psicanálise que faz sua Sátira psicanalítica pela Filosofia e nos alerta sabiamente: podemos insultar o outro. Entrego-lhe a palavra para encerrar esse post.

“Como você pode ter absoluta certeza de não ser racista. Minha resposta é que existe somente uma maneira: quando você pode trocar insultos, pilhérias, piadas, com um membro de uma raça diferente e ambos estão seguros de que não há por trás disso uma intenção racista. Se, ao contrário, jogamos o jogo do politicamente correto do ‘Oh, como te respeito’, ‘que interessantes são tuas tradições’… é racismo investido e é repugnante.” (Slavoj Žižek)

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