Considerações Sobre a Poiesis

“Me dêem algum céu em fogo, Neve em dia de verão. Me dêem vidas em jogo. Rastros de morte no chão. Amores com ousadia. Frisson de riscos de giz. Que eu faço uma poesia. Ué, já fiz.” (Millor Fernandes, Poemeu) Há na poesia, costumava dizer Drummond, evidentemente quando vivo, o encanto de uma fantasia que se cristaliza…

Profundamente

Como Drummond sou Fazendeiro de Ar. Meu roçado é de palavras, meu gado de ilusão (que foge continuamente na forma de amarga desilusão, verdadeiro e natural sentimento do mundo). Recolhido em minha campânula de vidro sigo meus dias protegido desse mundo ruidoso. Mas conforme meu poeta-patrono de tudo fica um pouco e esse mundo que…

O Fazendeiro do Ar

Em brevíssimo documentário, Fernando Sabino retrata seu conterrâneo mineiro estendendo diante de nossos felizardos olhos um pequeno-imenso painel com algumas das questões fundamentais que envolvem a poesia do Grande Itabirano e sua poesia oceânica. O documentário está disponível em DVD ao lado de outros saborosíssimos documentários sobre outros autores viscerais em um volume chamado “Encontro…

Cartas, Telegramas e outras Memórias

Organizando minha velha caixa de correspondência redescobri que, até a invenção de e-meio (o meio virtual composto por emails, blogs, microblogs, redes sociais e demais recursos que simulam uma proximidade que é, no máximo, meia) alguns dos eventos fundamentais da minha e de muitas vidas foram prenunciados por carta e anunciados pelo grave telegrama. Desde…

Necrológio dos Desiludidos do Amor (por Drummond)

“Os desiludidos do amor estão desfechando tiros no peito. Do meu quarto ouço a fuzilaria. As amadas torcem-se de gozo. Oh quanta matéria para os jornais. Desiludidos mas fotografados, escreveram cartas explicativas, tomaram todas as providências para o remorso das amadas. Pum pum pum adeus, enjoada. Eu vou, tu ficas, mas nos veremos seja no…

O Padre, a Moça (fragmento do poema de Drummond)

“1. O padre furtou a moça, fugiu Pedras caem no padre, deslizam A moça grudou no padre, vira sombra, aragem matinal soprando no padre. Ninguém prende aqueles dois, Aquele um Negro amor de rendas brancas. Lá vai o padre, atravessa o Piauí, lá vai o padre, bispos correm atrás, lá vai o padre, lá vai…

Os Dois Vigários (por Drummond)

“Há cinqüenta anos passados, Padre Olímpio bendizia, Padre Júlio fornicava. E Padre Olímpio advertia e Padre Júlio triscava. Padre Júlio excomungava quem se erguesse a censurá-lo e Padre Olímpio em seu canto antes de cantar o galo pedia a Deus pelo homem. Padre Júlio em seu jardim colhia flor e mulher num contentamento imundo. Padre…

Procura da Poesia (por Drummond)

“Não faças versos sobre acontecimentos. Não há criação nem morte perante a poesia. Diante dela, a vida é um sol estático, não aquece nem ilumina. As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam. Não faças poesia com o corpo, esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. Tua gota de bile,…

O Silêncio em Três Poemas (por Drummond)

Folheando o “Discurso de Primavera e Algumas Sombras“, um livro indevidamente pouco recordado no conjunto geral da extraordinária poesia do meu querido Drummond, me deparei “casualmente” com o que chamei pessoalmente de uma Trilogia do Silêncio. Um conjunto de três belos poemas sobre a dialética entre silêncio e palavra com os títulos de: “A Palavra…

Para Sempre (por Drummond)

“Por que Deus permite que as mães vão-se embora? Mãe não tem limite, é tempo sem hora, luz que não apaga quando sopra o vento e chuva desaba, veludo escondido na pele enrugada, água pura, ar puro, puro pensamento. Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio. Mãe, na sua graça,…