Luar (por Guimarães Rosa)

“De brejo em brejo, os sapos avisam: -A lua surgiu!… No alto da noite as estrelinhas piscam, puxando fios, e dançam nos fios cachos de poetas. A lua madura Rola,desprendida, por entre os musgos das nuvens brancas… Quem a colheu, quem a arrancou do caule longo da via-láctea?… Desliza solta… Se lhe estenderes tuas mãos…

À Une Raison (por Arthur Rimbaud)

“Un coup de ton doigt sur le tambour décharge tous les sons et commence la nouvelle harmonie. Un pas de toi, c’est la levée des nouveaux hommes et leur en-marche. Ta tête se détourne : le nouvel amour ! Ta tête se retourne, – le nouvel amour ! “Change nos lots, crible les fléaux, à…

Verdade (por Carlos Drummond de Andrade)

“A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade, porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os meios perfis não coincidiam. Arrebentaram a porta. Derrubaram…

A Bruxa (por Carlos Drummond de Andrade)

“Nesta cidade do Rio, de dois milhões de habitantes, estou sozinho no quarto, estou sozinho na América. Estarei mesmo sozinho? Ainda há pouco um ruído anunciou vida ao meu lado. Certo não é vida humana, mas é vida. E sinto a bruxa presa na zona de luz. De dois milhões de habitantes! E nem precisava…

Uma Hora e Mais Outra (por Carlos Drummond de Andrade)

“Há uma hora triste que tu não conheces. Não é a tua tarde quando se diria baixar meio grama na dura balança; não é a da noite em que já sem luz a cabeça cobres com frio lençol antecipando outro mais gelado pano; e também não é a do nascer do sol enquanto enfastiado assistes…

Anoitecer (por Carlos Drummond de Andrade)

“É a hora em que o sino toca, mas aqui não há sinos; há somente buzinas, sirenes roucas, apitos aflitos, pungentes, trágicos, uivando escuro segredo; desta hora tenho medo É a hora em que o pássaro volta, mas de há muito não há pássaros; só multidões compactas escorrendo exaustas como espesso óleo que impregna o…

Inocentes do Leblon (por Drummond)

“Os inocentes do Leblon não viram o navio entrar. Trouxe bailarinas? trouxe imigrantes? trouxe um grama de rádio? Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram, mas a areia é quente, e há um óleo suave que eles passam nas costas, e esquecem.”

A Partida (por Augusto Frederico Schmidt)

“Quero morrer de noite. As janelas abertas Os olhos a fitar a noite infinda Quero morrer de noite. Irei me separando aos poucos Me desligando devagar. A luz das velas envolverá meu rosto lívido. Quero morrer de noite. As janelas abertas. Tuas mãos chegarão aos meus lábios Um pouco de água E os meus olhos…

Poema de Desintoxicação (por João Cabral de Melo Neto)

“Em densas noites com medo de tudo: de um anjo que é cego de um anjo que é mudo. Raízes de árvores Enlaçam-me os sonhos No ar sem aves vagando tristonhos. Eu penso o poema da face sonhada, metade de flor metade apagada. O poema inquieta o papel e a sala. Ante a face sonhada…