Reflexões de Esperança para o Natal

nietzche-by-fernandes“Todos os que estão na praça regurgitam a ideia de um além do homem. Todos querem ser o ultimo homem. (…) Que é amor? Que é criação? Que é nostalgia? Que é estrela? – Assim pergunta o último homem e pisca os olhos. A terra se tornou pequena então, e sobre ela saltita o último homem, que torna tudo pequeno. Sua estirpe é indestrutível, como a pulga; o último homem é o que vive mais tempo. ‘Nós inventamos a felicidade’ – dizem os últimos homens, e piscam os olhos. Abandonaram as regiões onde é duro viver, pois a gente precisa de calor. A gente, inclusive, ama o vizinho e se esfrega nele, pois a gente precisa de calor. Adoecer e desconfiar, eles consideram perigoso: a gente caminha com cuidado. Louco é quem continua tropeçando com pedras e com homens! Um pouco de veneno, de vez em quando, isso produz sonhos agradáveis. E muito veneno, por fim, para ter uma morte agradável. A gente continua trabalhando, pois o trabalho é um entretenimento. Mas evitamos que a diversão nos canse. Já não nos tornamos nem pobres, nem ricos: as duas coisas são demasiadamente molestas. Quem ainda quer governar? Quem ainda quer obedecer? Ambas as coisas são demasiadamente molestas… Nenhum pastor e um só rebanho! Todos querem o mesmo, todos são iguais: quem sente de outra maneira segue voluntariamente para o hospício… A gente ainda discute, mas logo se reconcilia, senão estropia o estômago. Temos nosso prazerzinho para o dia e nosso prazerzinho para a noite, mas honramos a saúde. ‘Nós inventamos a felicidade’, dizem os últimos homens e piscam o olho.” (NIETZSCHE, F: Also sprach Zarathustra, in KSA, vol. 4, p. 19s., tradução de Oswaldo Giacoia Júnior)

“(…) creio que tudo o que hoje na Europa estamos habituados a venerar como ‘humanidade’, ‘moralidade’, ‘humanitarismo’, ‘compaixão’, ‘justiça’, com efeito pode ter um valor de fachada, de modo que como enfraquecimento e mitigação de certos impulsos fundamentais poderosos e perigosos, a despeito disso, a longo prazo, não é nada além do que o apequenamento inteiro do homem, sua definitiva mediocrização, se me quiserem excusar uma palavra desesperada para um assunto desesperado.” (NIETZSCHE, F: Fragmento Póstumo 2 [13], outono de 1885, tradução de Oswaldo Giacoia Júnior)

MartinHeidegger“Com cegos, ninguém pode falar sobre as cores. Contudo, pior que a cegueira é o ofuscamento. O ofuscado considera que sabe ver e, mais que isso, que vê da única maneira possível, enquanto, todavia, esse considerar lhe oblitera toda visão. (…) “Nós inventamos a felicidade – dizem os últimos homens e piscam o olho”, diz Nietzsche no Zaratustra. Em nosso destinamento, providenciaremos, com o auxílio da Sociologia, da Psicologia, da Psicoterapia e ainda com alguns outros meios, para que, de conformidade com isso, todos os homens sejam colocados, da mesma maneira, no mesmo estado da mesma felicidade e seja assegurada a igualdade do bem-estar de todos. Mas, a despeito dessa invenção da felicidade, os homens são caçados de uma guerra mundial na outra. Sinaliza-se para os povos que a paz seria a eliminação da guerra. Enquanto isso, na verdade, a paz, que elimina a guerra, só poderia ser assegurada por intermédio de uma guerra. Contra essa paz bélica abre-se novamente uma ofensiva de paz, cujos ataques mal se deixam designar como pacíficos. A guerra: asseguramento da paz; mas a paz: eliminação da guerra. Como pode a paz ser assegurada por aquilo que ela elimina? Aqui, no fundamento mais profundo, algo se escangalhou, ou talvez nunca tenha estado conjuntado. “Guerra” e “Paz” permanecem, porém, enquanto isso, como dois gravetos que os selvagens atritam permanentemente um no outro, para fazer fogo. (…) Antevendo tudo isso desde longe, a partir do mais elevado posto, Nietzsche, já nos anos 80 do século anterior, pronuncia para tanto a palavra simples, porque pensada: “O deserto cresce”. Isso quer dizer: a devastação é mais sinistra do que o aniquilamento. A destruição elimina apenas aquilo que até então cresceu e foi construído. A devastação, porém, impede o crescimento futuro e todo construir… O Sahara, na África, é apenas uma espécie de deserto. A devastação da Terra pode caminhar junto tanto com a obtenção de um elevado padrão de vida para o homem como com a organização de um estado uniforme de felicidade de todos os homens. A devastação pode ser o mesmo com ambos e, do modo mais sinistro, transitar por toda parte, precisamente porque ela se oculta.” (HEIDEGGER, Martin. Fragmentos de “O que quer dizer pensar”: 1984: Was heisst  Denken?. Tübingen, M. Niem eyer, tradução Oswaldo Giacóia Júnior)

la_majorite_cest_vous

Anúncios

Sobre Pedro Gabriel

www.lituraterre.com
Esse post foi publicado em Filosofia, Passagem das Horas e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s