(Minha) Carta ao Tom

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Tom, querido, saudades.

Como bem lembras (visto que morte nossa é coisa que não ocorre sem nós) há exatos dezenove anos deixavas esse mundo. Sem Internet ou celulares, em 1994 a vida não era instantânea, não vibravam em nossos bolsos as últimas notícias sobre nada e o importante tudo nos chegava, dias depois, por jornais, boatos e revistas.

Lembro com vívido ardor de quando fui à caixa de correio receber a revista semanal que me trouxe, já na capa, a notícia de sua partida. Segurei aquele pedaço de papel liso sem acreditar que esse fora o desfecho de sua cirurgia. Pelo visto, eu tinha razões para estar preocupado com teu coração. Agora era o meu que doía. Sem conter o peso da notícia, sentei no chão de terra, do jeito que estava, e debaixo do sol das 11h banhei as 12 páginas daquela (talvez a mais até hoje) extensa reportagem com o salgado pranto que abrolhava de minha alma abismada. Quanta tristeza, tomzinho. Lembro de ter ouvido duas vozes, possivelmente de vizinhos que passando me viram através da grade do portão, perguntando um ao outro o que teria ocorrido. A outra voz disse que possivelmente eu perdera um parente. Acertaram em cheio.

Que dor dilacerante. O que seria de mim sem sua música? E se teus discos acabassem nas lojas? Eu ainda não tinha todos, como eu poderia ficar sem uma única nota do teu piano? O que seria do meu sonho de te conhecer e te apresentar meus filhos que não tinham nascido ainda? Estaria eu sozinho na vida? Alguém seria capaz encapsular em canto o meu coração prematuramente romântico? Como poderia haver vida, Brasil, floresta, urubus, mata sem teu passo adâmico que a tudo dava nome na forma de canção?

Se passaram 19 anos, meu tomzinho querido. O tempo fugaz breve foi, tal como previstes em “Querida”: breve, tão breve a vida, menor, bem menor que tua arte que te imortalizou. Escrevo par te dizer que embora o tempo tenha sido injusto contigo, tua obra sobrevive ainda. As pessoas não mais se recordam da fila que os compositores, músicos e arranjadores de Jazz faziam para gravar contigo. Não sabem dos muitos discos gravados em toda parte do mundo com tuas obras, não sabem que The Voice te quis. Não sabem que movimentastes esse mundo bem mais numerosa e profundamente do que qualquer movimento midiático hoje acelerado com o lixo veiculado em uma grande rede que substituiu a escolha orientada pelo bom gosto, por uma seleção indicada pela popularidade.

Em um mundo habitado por uma pobre gente rica que, em sua miudez, desaprendeu a linguagem com que as almas (sempre em silêncio) se comunicam, é inútil não ser solitário, mas tua obra é um colete salva-ouvidos que torna menor qualquer miséria. Assim, não nos importemos com isso. Deixemos essas pessoas pra lá, Tomzinho, são agitadas e incapazes de si próprias (tal qual denuncia o boi drummondiano que certa vez os espiou).

Como vês, Drummond acertou em cheio: o tempo é de fezes, de maus poemas, de alucinações e espera. Tempo e pobreza fundem-se num mesmo impasse, mas tua canção é uma flor nascida no rio de aço da História que ruma para o fechamento estendendo em nosso curso um caminho iluminado por meio do qual somente alguns poucos se salvam. Falando nele, aliás, antes que eu me esqueça, mande um abraço pra meu querido Dru Dru.

Me fale um pouco de você. Como anda a vida no paraíso? Têm piano? Cafezinho? Uísque? De minha parte ando bem. Seguindo a vida em direção à morte que é para onde tudo se dirige.

Escrevo-te por muitas coisas, mas sobretudo para falar de minha saudade e te dizer quão melhor é essa viagem pelo mundo acompanhado de você. Obrigado, Tom. Obrigado por teres arriscado tudo pra ir correr atrás do aluguel com tuas pastas de arranjo na noite carioca encontrando lá Vinícius e o mundo. Esse caminho indiretamente te trouxe até mim e a tantos que hoje, em silêncio, choram comigo a tua falta. Em mim sua obra continua mais viva do que nunca, em mim você não passará jamais. Tua música imensa fala da delicadeza que nunca alcançaremos como povo ou nação, mas desenha um caminho para uma vida mais suave e mais pacífica. Filho meu ainda não há, mas ele te conhecerá ao certo. Tua obra, aliás, alivia em mim o peso da amorosa solidão, essa experiência existencial de saber-se só, saber que sozinhos viemos, vivemos e morreremos. Tua obra renova em mim a crença no amor e na procura da realização em uma experiência genuína de um encontro vivido com honestidade: “amar sem mentir, nem sofrer”.

Há tanto tempo não nos falamos que talvez não saibas, mas me tornei psicanalista. Meu trabalho hoje, aliás, parte do amor em uma modalidade específica a que Freud que conhecestes chamou de amor de transferência. Certa feita você disse que entender é menor que amar e que, sem isso, nada jamais muda. Nem Lacan diria melhor, meu trabalho consiste em minha capacidade de ouvir e você e me ensinou desde cedo a amar e ouvir. Como posso te agradecer suficientemente? Te devo tanto. Por isso choro agora vendo tua imagem, choro feliz pensando que o mundo não me tirou você. Enfim, querido, é isso. Estava celebrando sozinho a tua saudade e ouvindo uma tua canção que tanto me diz hoje: “Don’t you know, Dindi, I’d be running and searching for you like a river that can’t find the sea, that would be me without you, my Dindi.”. Inicialmente iria compartilhar o verso e a canção em uma coisa chamada facebook (não é o que parece, ninguém ali põe a cara em livros) e, escrevendo um comentário, surgiu essa carta em um só jato que lerás do além. Do além de nós, do além de nossa humana condição onde sempre estivestes mesmo quando tinhas corpo.

Não sei se um dia haverá Dindi ou filho de Dindi, mas preciso agradecer-te por teres feito, com a deliciosa canção que saiu do teu piano, com que o amor e a espera subsistam pacificamente em meu coração, mesmo habitando em um mundo que, crescendo, desaba.

Um abraço especial, de muita saudade. Minha casa (paredes e coração) é impregnada de você.

P.

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Sobre Pedro Gabriel

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