Uma passagem para nada

janelaApós outras tentativas de circulação entre os meios culturais de Recife, cidade em evidência por ser um caldeirão ativo onde borbulham novidades musicais e cinematográficas a todo instante, retorno da jornada novamente frustrado com a nulidade estética de festivais e turnês que, em que pese sua incapacidade de tocar a obra, a poiesis, uma mínima epifania, permanecem lotados de expectadores curiosos. Agamben, em sua tese sobre o autor de La Fontaine, afirma que a chamada arte contemporânea nada mais faz do que repetir o gesto de Marcel Duchamp, enchendo de não-obras e performances os museus e salas de cinema, instituições que deixaram de ser difusores de uma experiência verdadeiramente estética para se tornarem meros organismos do mercado, tentáculos do capitalismo destinados a acelerar a circulação de mercadorias, que, assim como o dinheiro, uma vez tendo alcançado o estado de liquidez, almejam ainda valer como obras, a exemplo dos milionários que vendem a sua como uma trajetória de uma pretensa obra de arte: a arte de ganhar dinheiro. É isso o que emana do caldeirão recifense: um ensopado de não-obras cunhadas a partir da errônea suposição que, excluídos os atributos industriais (situação em que a produção performática, caótica e improvisada é seu ápice) o que se produzir será necessariamente obra de arte. É uma aposta incorreta que não encontra apoio em solidez qualquer. Nessa malfadada jornada a procura de alguns grãos de arte para o moinho do meu entendimento, sublinho a infeliz descoberta de “Uma Passagem para Mário”, com roteiro de Mário Duques e direção de Eric Laurence, a quem conheci pessoalmente na estréia. Em que pese a beleza aparente da exibição (onde trilha sonora e direções de arte e fotografia foram imensamente bem sucedidas) o que se tinha na tela sequer era um filme, sequer subsistiria sem uma volumosa explicação em paralelo apresentada antes pelo diretor e repisada pela mídia tornando evidente o caráter ready-made da produção. Tal como outras obras vazias, este é um não-filme, uma produção que vem para “estourar” e posteriormente sumir do radar cinematográfico deixando espaço para algum outro produto de difusão instantânea. Nesses meios, a condição de circulação (de pessoas e de mercadorias “culturais”), filmes performáticos e turnês musicais são construídos não para a permanência, senão para um estouro momentâneo (os milhões de compartilhamentos nas redes sociais) e um iminente desaparecimento. Desse modo, expectador e “obra” relacionam-se como surfista e onda e assim como um surfista necessita sempre de uma penúltima onda, os produtores do “mercado cultural” necessitam do desaparecimento de sua produção a fim de deixar vaga a “cena” para a próxima novidade. A expressão “cena” cultural é, aliás, um evidente sintoma desse simulacro que agrega ao redor de si um sem conta de expectadores tão vazios quanto o que lhes é apresentado. Eis (segundo Agamben) a contradição da arte  contemporânea: abolir a obra e ao mesmo tempo estipular seu preço. O filósofo Martin Heidegger, uma das mentes mais brilhantes em de todos os tempos, já notara que no nosso lidar mais cotidiano com os objetos intramundanos não nos impomos a tarefa radical da existência, haja vista sermos tomados pelas urgências de nossos afazeres mais primários. Tal movimento não seria circunstancial, mas uma tendência constitutiva no exercício cotidiano da existência já assinalada desde Aristóteles na sua Metafísica sob o nome de “volúpia de ver”. Desse modo, como uma alternativa à curiosidade, a um movimento repetitivo e voraz de busca por novidades onde os falantes não se compromentem consigo ou com a coisa dita, surge a arte como alternativa de propriedade: a arte é o maravilhamento, dirá Heidegger num certo momento. O tal caldeirão recifense, ao contrário do que se poderia esperar minimamente de qualquer coisa que se pretenda arte, ao invés de nos singularizar nos imerge em um caldo de impessoalidade, impermanência e inconsistência: as três notas que formam o acorde da mais completa irrelevância cultural de nosso tempo. Não obstante, as pessoas comparecem fielmente às exibições, indiferentes à tela ou ao palco, preocupadas em passar adiante, em circular, em ver e, sobretudo, serem vistas em seu trânsito irrefletido. “Uma Passagem para Mario” é um exemplo rico em tipicidade desse momento vivido: a própria morte retratada no filme ao invés de convergir para uma singularização pela via do seu derradeiro ato (o de morrer), convoca todos a uma imersão imaginária, onde todos naufragam juntos em uma experiência pretensamente coletiva do que é, em verdade, a mais solitária das experiências. Nisso consiste, afinal, a passagem de Mário como grande emblema desse festival, dessa cidade, desse tempo: uma passagem para todos nós ninguém, uma passagem para nada.

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