Escricantores: James Joyce no Sertão de Guimarães Rosa

Emito aqui uma promissória para meus leitores: trazer a este blog algo sobre a relação entre James Joyce e Guimarães Rosa. Abro, entretanto, vosso apetite (que espero ser voraz) com dois fragmentos de O Burrinho Pedrês, texto de Sagarana, do nosso profeta mineiro e um de James Joyce. Todos bem expressivos do estilo que sustenta os autores. No nosso Rosa lemos:

“As ancas balançam, e as vagas de dorsos, das vacas e touros, batendo com as caudas, mugindo no meio, na massa embolada, com atritos de couros, estralos de guampas, estrondos e baques, e o berro queixoso do gado junqueira, de chifres imensos, com muita tristeza, saudade dos campos, querência dos pastos de lá do sertão…”.

Mais adiante, no mesmo texto:

“Boi bem bravo. Bate baixo, bota baba, boi berrando… Dança doido, dá de duro, dá de dentro, dá direito…Vai, vem, volta, vem na vara, vai não volta, vai varando…”.

Guimarães Rosa nos presenteia, ao longo de sua obra e nesses trechos sobremaneira, com um escricanto, uma escrita para ser ouvida mais que lida.  Assim como James Joyce, Rosa escreve para ser ouvido. Como música emergindo do papel em notas dançantes, cambaleantes, que sobem e descem oscilando como a queda e a ressurreição do Finnegans Wake, lento Guimarães somos convidados a dançar, a prosseguir, a atravessar o deserto imenso assumindo o dever de só do humano. Essa é a tarefa da literatura feita som e música: enodar e desenodar, cavar caminhos, promover mudança de lugares. Em Joyce lemos:

“The wagrant wind’s awalt’zaround the piltdowns and on every blasted knollyrock (if you can spot fifty I spy four more) there’s that gnarlybird ygathering, a runalittle, doalittle, preealittle, pouralittle, wipealittle, kicksalittle, severalittle, eatalittle, whinealittle, kenalittle, helfalittle, pelfalittle gnarlybird.” [FW10 – lines 29-34 – Ateliê Editorial – Livro 1 Capítulo 1, 2ed 2004].

A canção acima é intraduzível. Além da dinâmica, cadência, diversos registros em diferentes níveis, referências à segunda grande guerra e a hilária contagem de um a dez e meio disfarçada nos princípios da oração começada em runalittle, há uma infinidade de sentidos e fragmentos de idiomas condensados. Entretanto, mesmo sem o adequado conhecimento dos cem idiomas usados por Joyce ou da heráldica histórica que esse romance evoca, resta a música. O maravilhoso som, a divertida escuta dos fonemas que acariciam nossos ouvidos. Aqui o entendimento se esvai, as necessidades de coerência ou de  precisão hierárquica ou lógica formal de nada valem. Não à toa a literatura é mulher. Donaldo Schüler fez um pequeno milagre ao transcriar o trecho acima como:

“Vagos ventos valsam em torno de tumbas e a cada rajada rochatumbante (se podes apontar cinqüent’espreito inda quatro) lá stá a avepiopio a recolher um corre-pouco, faz pouco, roga-pouco, verte-pouco, torce-pouco, recua-pouco, separa-pouco, come-pouco, chora-pouco, sabe-pouco, pinga-pouco, pilha-pouco, aavepiopio.” [FW10 – lines 29-34 – Ateliê Editorial – Livro 1 Capítulo 1, 2ed 2004]


Regressarei a isso. Deixo-vos no entanto com essa coceira mental sobre as semelhanças fonéticas de dois escritores que fazem música. Escricantores, para usar um termo criado pelo psicanalista Jacques Laberge. As semelhanças, no entanto, são mais que fonéticas e nos sugerem que há um sertão na Irlanda, há ato no sentido da mudança de lugares em diferentes estágios. Em ambos os autores há um convite a uma travessia. Paro por aqui, numa das muitas voltas até o nonada e deixo-vos com o Sertão Mineiro de buritis imensos  captado pelas lentes de Fernando Sabino que dirige o curta abaixo. Deixo-vos também a promessa de um texto mais amplo e com referências mais saborosas. Quem abre o vídeo é Manuelzão em pessoa, o que inspirou Manuelzão e Miguilim. Nonada.

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Sobre Pedro Gabriel

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5 respostas para Escricantores: James Joyce no Sertão de Guimarães Rosa

  1. videcampos disse:

    Oi, Pedrinho! Gostei muito dessa “coceira mental”. Sim, há, mesmo essa afinidade impen´sável. Acho tbm que rolou! Bjoca.

  2. Fernanda disse:

    Recebo a postagem como um presente e uma homenagem à nossa conversa da tarde. Muito obrigada!

  3. Um achado, belos olhos e ouvidos atentos meu caro, é impressionante a proximidade das coisas nessa vida, principalmente dos grandes.

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