A queda e a errância ou “como assim não há relação sexual”?

Num trecho célebre de Ser e Tempo (uma das obras máximas de nossa época), Martin Heidegger usa a metáfora da queda (de-cadência/verfallen) para exprimir a existência humana. O termo decadência não exprime nenhuma avaliação negativa: implica antes numa espécie de determinação existencial constituindo, no seio de seu movimento, características do Ser do Homem. Num momento posterior irá também se referir à tendência ontológica do homem (dasein) de perder-se continua e repetidamente no seio da impessoalidade repetindo a todo instante este movimento inicial de queda (sem no entanto querer dizer com isso que haja alguma espécie de corrupção da natureza humana, tal como uma leitura literal poderia sugerir).

É o que encontramos no relato dos poetas e que demonstra a Psicanálise nas suas apresentações de caso (nas queixas apresentadas pelos pacientes). É também o argumento principal desse blog e que pode ser deduzido de uma análise lúcida do que se dá no exercício cotidiano de nossa existência, a observação atenta atestará o mesmo que disse toda essa gente: que em nós algo claudica. Nós, os mancos, vamos nos entretendo com a idéia de que, no passado, alguma coisa se perdeu e a nostalgia é nossa resposta.

Talvez seja aqui, neste ponto, que se encontre toda a riqueza deste saber inconsciente que o corpo comporta: está no que se constitui de incestuoso em sua construção, no cruel amor entre mãe e filho; no que tem que se descolar entre S1 (esse significante primordial, que se constitui numa cifra daquilo que virtualmente poderia representar o sujeito, a crifra do gozo que se perdeu) e S2 (restante da cadeia com a qual o sujeito vai substitutivamente se identificando) para que, no corpo do bebê, seja suscitada uma resposta a qual chamamos de Sujeito, efeito que, apertado, aparece na brecha entre significantes mestre (S1) e do corpo (S2). Esse coup de force necessário para que apareça o Sujeito (e para que este fale) quando nos descola de nossa ancestralidade animal nos torna exilados, estrangeiros: caímos na palavra (e que belo tombo isso não causa). Dito em termos simples: algo se perde, algo que não é qualquer objeto. Já nascemos traídos pois o primeiro amor de nossa vida não nos pertence e sim a um outro. Nosso primeiro desencontro se dá quando percebemos que o mundo não responde ao nosso desejos (entendendo mundo como mãe, que é o que a crianlça, de saída, percebe como sendo mundo). É a nossa primeira ferida narcísica.

A falta a que freud chamou metaforicamente de “castração” (e que diz respeito a essa perda objetal) é o que funda a nossa ordem sexual no mito narcísico de que nossa face ficou perdida nalgum espelho da infância: separados de nossa imagem, tal qual narcisos, somente seremos felizes se, e somente si, não enconrtarmos conosco próprios: eis a fórmula do Exílio.

Essas são as raízes de nosso desacerto. Tudo começou com uma queda e termina num exílio.

Freud no seu Mal Estar na Civilização aponta as três principais raízes da infelicidade humana, sendo a maior delas o impossível da relação com o outro. Lacan parece que cava ainda mais o buraco assegurando que “il n’y a pas rapport sexuel“. Disse isso e morreu. Não deixou de ser covardia.

Heidegger estava errado. A Psicanálise não é uma técnica do corpo que biologiza a uicia aristotélica, tampouco é uma Igreja da Sublimação. Talvez como nenhum outro saber a Psicanálise nos dá ferramentas para compreender e desmontar a Ideologia porque está num momento anterior a esta e isso interessaria  sobremaneira  a Heidegger se ele estivesse disposto a compreendê-la (no sentido mesmo que dava ao ato da compreensão). Acompanhar sua leitura (de Heidegger) é um prazer indescritível. Talvez nenhum outro filósofo tenha conseguido empregar tamanho fôlego em reler toda a filosofia restaurando o espírito radical (de raiz) das considerações originais dos principais filósofos da tradição (dissociados do que seus comentadores imortalizaram como sendo a leitura canônica). Nessa mina descobriu a pepita da diferença ontológica. Que bem não o teria feito a leitura de Freud sem os óculos de Medard Boss? A Psicanálise, em diferença ao que ele considerava, e como bem definiu Néstor Braunstein, é uma ética que se manifesta em uma técnica linguageira centrada em torno dessa articulação do desejo inconsciente que define os modos como cada um se acerca ou se distancia do ato de ruptura que nos fez sujeitos. Nossa posição de rebentos furados por uma demanda de amor interessaria a Heidegger. Não posso deixar de lamentar como este apreciaria a metáfora da banda de Moebius pensada por Lacan para desenhar a nossa infinita errância de exílio pós-queda: uma forma errante e sem dentro ou fora (tal como o pensava Heidegger acerca de seu dasein).

Esse não diálogo é um dos desencontros mais lamentáveis  da história dos saberes. Lacan fez o que pôde, bem que tentou. Enviava cartas e cópias de sua produção para Martinho e a única resposta que recebeu veio por tabela numa carta a Medard Boss onde Heidegger comenta sobre seu correspondente francês: “O psiquiatra precisa de um psiquiatra”. A despeito do que não pôde ser capaz de compreender da Psicanálise, Heidegger foi feliz ao descrever a existência como de-cadência. Existência é queda primeiro, exílio depois.

Exílio, termo melhor não pode haver para exprimir a não relação sexual. É por justamente não haver conjunção (proporcionalidade) entre os sexos que a união não é senão uma ilusão que só pode se dar em terreno imaginário. É o que inaugura e dá suporte ao a-mor, o sem lugar, para então garantir a tormenta e o desencontro. “Amor, fonte de eterno frio” (dirá Drummond), uma linha tênue entre jogo e poesia, um pequeno grão de areia que em si não pesa nada, mas que arranha a córnea e paralisa o corpo inteiro e que é, não obstante, o que ao lado do ódio e da ignorância mobilizará a errância do existir humano.

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Sobre Pedro Gabriel

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