O dia de que mulher?

ct-tempo-ilusao-plataoNão há somente beleza na afirmação de Platão de que “o tempo é a imagem móvel da eternidade”. Há também, nessa postulação de capital importância, a menor síntese do ocidente em seu percurso oscilante entre uma e outra proposta de organização do mundo. Quando diz Platão que o tempo em seu devir é cópia, simulacro ou ainda imagem, o que está posto é que tempo, em sua característica mutável, é menor que a eternidade que o define e conceitua. A eternidade, o fim perfeito da História, em sua imutabilidade, seria aquilo que organiza e guia o homem presente até o fim histórico. Se há um fim perfeito e previsível da humanidade, se o mundo pode ser melhor e mais organizado, se já se sabe de saída aonde termina a História, o homem presente pode ser massacrado em sua liberdade, criatividade e inventividade em nome da implantação do modelo imutável. Sendo o tempo menor que a eternidade, não há outra postura senão a suspeita odiosa quanto à ação do pensamento que a tudo põe a nú apresentando a incompossibilidade de várias de nossas melhores intenções. Não à toa, percebendo a fina semelhança entre uma e outra proposta, Nietzsche chamará o cristianismo de platonismo popular. De fato, ambas as propostas supõem um final perfeito dado ao bom e ao justo por meio da premiação suas boas obras, daquelas que implantam no tempo móvel aspectos da eternidade imóvel, ou seja, daqueles que, conhecendo o final dos tempos, sabem com precisão clarividente para onde marchamos e pode inclusive, como já dito, sacrificar o homem presente em nome do homem final (aquele maior que este). Embora a História (sobretudo a do recém findo século XX) tenha evidenciado o fundo homicida que sustenta as propostas messiânicas, elas, não obstante, retornam como pulga (conforme imagem do mesmo Nietzsche). Não à toa, Brecht dirá em uma de nietzche-by-fernandessuas peças que o fascismo é uma cadela eternamente no cio. Superado o totalitarismo eclesiástico que, supõe-se, determinou formas perfeitas de pensamento, linguagem e ação durante a terça parte de nossa História escrita, uma nova forma de totalitarismo ressurge todos os dias diante de nossos já tão massacrados narizes. Não sem a anuência coletiva (sem a qual não se faz servidão), ignorando tudo o que já se discutiu em Filosofia, Psicanálise e (sobretudo) nas antevisões proféticas dos nossos melhores autores literários, ousa-se novamente colocar em pauta em escala global propostas de um intervencionismo pleno que nos planifica em todas as esferas: econômica, psicológica, linguística, moral, ambiental, léxica… total. Há algo de muito sintomático em nosso percurso quando,  após infinito debate sobre os riscos do racismo, a humanidade ainda assim orienta-se para a criação de castas (seja a reinventada “raça” ou o recém criado “gênero” e suas variações), como se homens e mulheres ou pretos e brancos habitassem humanidades distintas e precisassem partilhar recursos. Há algo de muito errado no mundo quando o Filósofo abdica de sua tarefa fundamental (a de pôr em marcha a ação do pensamento) e passa a ser o promotor de uma práxis irrefletida: “- Não pensem, ajam. Tudo já foi pensado, mapeado, determinado. Sabemos exatamente quais as palavraso-pensador e tendências devem ser extirpadas de nosso mundo. Há palavras que não podem ser ditas, livros que não podem ser lidos, ideias associadas ao mal. Sigam-me, eu os conduzirei ao paraíso da boa prática, da boa ação, da paridade entre as diferenças que criamos.” Não à toa, a fim de dar nome a essa marcha, ressuscita-se o significante “Comunismo”: a modalidade mais cruel de apagamento do indivíduo em nome de uma moral de bando. Se o canceroso Capitalismo é comumente equiparado a uma selva onde devemos  enfrentar diariamente um conjunto novo de feras a fim de salvar o mais primário em nós, o Comunismo seria com justiça comparável a um deserto imenso onde não sobrevive sequer algum ímpeto de salvação pessoal: um endereço sem alma para homens sem alma. Há aí um retorno radical ao platonismo que nos torna minoritários em relação ao nosso desejo: a humanidade torna-se novamente uma criança que pede a alguém que a ensine a falar, a pensar, a escolher para fazer alguns “avanços” em direção a uma suposta perfectibilidade da história. Aqui o bem total é substituído pelo “útil”, mas não é o bem que caracteriza o platonismo como valor máximo, senão a teleologia: a crença que a humanidade “avança” em uma escala de perfectibilidade, como degraus que se sobe. Cabe aqui recordarmos o que diz Lévi-Strauss em seu brilhante “Raça e História”:

imagem-16“O desenvolvimento dos conhecimentos pré-históricos e arqueológicos tende a desdobrar no espaço formas de civilização que éramos levados a imaginar como escalonados no tempo. Isto significa duas coisas: inicialmente, que o “progresso” (se é que este termo ainda convém para designar uma realidade bem diferente daquela à qual nos dedicamos inicialmente) não é nem necessário, nem contínuo; procede por saltos, pulos, ou, como diriam os biólogos, por mutações. Esses saltos e pulos não consistem em ir sempre além na mesma direção; acompanham-se de mudanças de orientação, um pouco à moda do cavalo de xadrez, que tem sempre diversas progressões à disposição, mas nunca no mesmo sentido.cavalo-de-xadrez_17-926192448 A humanidade em progresso em nada se parece com um personagem subindo a escada, acrescentando por cada um de seus movimentos um novo degrau a todos os outros que já tivesse conquistado; evoca antes o jogador, cuja chance está dividida em muitos dados e que, cada vez que os lança, os vê se espalharem no pano, ocasionando contas bem diferentes. O que se ganha num lance se arrisca a perder no outro, e é apenas de um tempo a outro que a história é cumulativa, isto é, que as contas se somam para formar uma combinação favorável.” (Lévi-Strauss, Claude. Raça e História. In: Raça e Ciência. v. 1. São Paulo: Perspectiva, 1970. p. 245.

mulherO assunto seguiria por algumas centenas de páginas, mas dou um salto de Platão até o dia de ontem: chego, enfim, à questão do Dia 8 de Março. O modo como o dia da mulher foi celebrado com efusividade por todos os meios atualmente disponíveis, torna visíveis alguns dos sintomas da falência do debate público no momento em que nos encontramos historicamente. Associado a um efeito de onipotência promovido pelas mídias sociais (meio onde todos se acham habilitados a falar sobre a coisa pública e afirmar ou desqualificar algo por meio da simples opinião) há um mortífero automatismo psicológico que transforma o que deveria ser uma profunda e livre discussão em uma reafirmação de pressupostos impressionantemente idênticos e formulados com pequeníssimas variações. As questões sobre “o que é” ou “o que deseja uma mulher” são questões imensas para as quais é insuficiente toda a letra já produzida. Ao invés de adentrar nessa questão, resume-se a celebração a uma reafirmação de ideias comezinhas que nada dizem de específico sobre tal mistério. Dizer que a mulher é uma luta (embora soe polido e solidário) é incorreto. Reduzi-la a um embate de gênero é operar-lhe uma redução metafísica reduzindo-a a um passo numa História concebida como inadequadamente reta e perfectível: é supor uma mulher imóvel localizada na eternidade para onde marcham, como obedientes pinguins, todas as mulheres do tempo em seu devir. A mulher é um continente inalcançado, um puro enigma sob diversos aspectos, sendo o mais evidente deles a sua singularidade radical. Não existem duas mulheres que se situem do mesmo modo em relação ao mundo ou à linguagem e essa propriedade elementar da feminilidade foi sintetizada por Lacan com a afirmação de que “A Mulher” (enquanto classe ou gênero) não existe, devendo ser lida e compreendida uma a uma. Desconheço maior elogio já feito. No litoral oposto, quando lemos nos milhares de textos produzidos no dia de ontem, supondo que o percurso feminino (o tornar-se mulher) resume-se a uma determinada luta de classe ou gênero sintetizadas nas afirmações generalizantes de que mulher é a liberta, a vadia, a eleitora, a eleita, percebe-se algo de extremo mal gosto. Em relação ao que a mulher é um déficit em vias de equiparação? É deficitária em relação ao quê? Ao homem? Seu percurso deve ser o mesmo? Seria por acaso a mulher uma espécie de homem que ainda não se fez historicamente? É isso que se celebrou ontem, os passos de uma aproximação imaginária. Deve a mulher trilhar os mesmos passos dos homens e se manter em silêncio à sombra de lideranças que lhes dizem o que desejar para chegarem ao final platônico da História? Tenho dúvidas profundas sobre a validade de “lisonjeios” dessa natureza, tenho dúvidas profundas se podemos supor a mulher como a história de conquistas sem colocar-lhe indevidamente no rastro dos homens. Nessas falas populistas e falsamente lisonjeiras, calcadas no politicamente correto, não há somente a demonstração pública de que não se sabe o que é uma mulher. Há algo bem pior: há um não querer saber.

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