Poesia, Conforto, Família

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Eis que minha família aumenta. Com os olhos iluminados de menino que encontra um brinquedo, descobri um novo poeta. Fagundes Varela, o “solitário imperfeito” no epíteto dado por Drummond, me chegou por meio de um texto do próprio Carlos em um comentário à sua poesia em que o anuncia não somente como um poeta que se declara solitário no seio desse oco mundo, mas que se compara ele próprio a uma paisagem áspera: a existência é deserto e seu espírito de poeta, deserto também, é “de dúbia areia coberto, batido pelo tufão” é também “rocha isolada pelas espumas banhada, dos mares na solidão” (ooohhhh beleza). Como não se interessar por um poeta desses? Qual a idade dessa voz combalida pelo peso da vida (pergunta Carlos Drummond)? Qual a idade desse velho que compõe poema tão transpassado de espessa e bandeiresca desilusão? É um velho, certamente, mas não um velho curvado pelo peso das décadas, senão um eremita curvado pelas dores e maldades, tecido deste estranho mundo: era um velho de 20 anos ao despontar em flor de poesia. Muito poderia dizer sobre o que descobri desse “mavioso cantor de soledades” e vindouras oportunidades não faltarão, entretanto, antes de apresentar seu extremo CONFORTO como primeira amostra de sua poesia aqui nessa freguesia, não posso deixar de registrar meu prazer em perceber pulsando, vivo, a rede de poetas que sustém minha vida. Os poetas são para mim o lastro de uma verdadeira família em uma líquida transmissão de dons e virtudes que flui entre nós por um rio de letra (mais determinante que o rio de sangue que bole em nossas veias). São eles, poetas e filósofos, os maiores responsáveis pela minha educação e pelos olhos abertos para as fatalidades dessa vida, dentre elas a enorme variedade com que os seres humanos se tornaram hábeis em odiar, sobretudo de modo parasitário em causas aparentemente nobres e libertadoras. Entretanto essa família imaterial, que cresce quando um membro nos apresenta um outro afluente para onde corre ligeiro o fluido e letral Rio, não nos habilita somente a ver, mas a contornar os demais perigos dessa vida. Olhar e passar, disse Dante. Olhar e resguardar-se, disse Fagundes Varela.

CONFORTO
(por Fagundes Varela)

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“Deixo aos mais homens a tarefa ingrata
de maldizer teu nome desditoso;
por mim nunca o farei:
Como a estrela no céu vejo tu’alma,
e como a estrela que o vulcão não tolda,
pura sempre a encontrei.

Dos juízos mortais toda a miséria
nos curtos passos de uma curta vida
também, também sofri,
mas contente no mundo de mim mesmo,
menos grande que tu, porém mais forte,
das calúnias me ri.

A turba vil de escândalos faminta,
que das dores alheias se alimenta
e folga sobre o pó,
há de soltar um grito de triunfo,
se vir de leve te brilhar nos olhos
uma lágrima só.
Oh! Não chores jamais! A sede imunda,
prantos divinos, prantos de martírio,
não devem saciar…
O orgulho é nobre quando a dor o ampara,
e se lágrima verte é funda e vasta,
tão vasta como o mar.

É duro de sofrer, eu sei, o escárnio  
dos seres mais nojentos que se arrastam
ganindo sobre o chão,
mas a dor majestosa que incendeia
dos eleitos a fronte os vis deslumbra
com seu vivo clarão.

Curve-se o ente imbele que, despido
de crenças e firmeza, implora humilde
o arrimo de um senhor,
o espírito que há visto a claridade
rejeita todo o auxílio, rasga as sombras, 
sublime em seu valor.

Deixa passar a doida caravana,
fica no teu retiro, dorme sem medo,
da consciência à luz;
livres do mundo um dia nos veremos,  
tem confiança em mim, conheço a senda
que ao repouso conduz.

(Negritos meus)

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Sobre Pedro Gabriel

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Uma resposta para Poesia, Conforto, Família

  1. Vanessa disse:

    PÉROLA (para Pedro Gabriel)

    Áspero grão de sofrimento
    molesta a branda consistência
    da alma do artista.
    assovia
    Verte o luar da alma ferida
    e veste a dor de opalescência:
    gera o poema.
    Helena Kolody

    (e para nossa alma, o presente da beleza)

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