07 de Setembro

Tentei passar o dia de modo divertido, às voltas com a poesia de Ascenso e longe da balbúrdia criada pela massa. Havia decidido não escrever nada sobre essa festa odiosa, mas são 23h 40min e ainda há barulho de festa, música e fogos promovido por meus festivos conterrâneos. Escrevo então nessa postagem forçada compelido pelas pessoas comuns que, a exemplo dos habitantes médios de outros cantos do mundo, ocupam suas vidas do preço da gasolina, da saúde dos familiares, de alguma fofoca, das coisas que compram, da vida sexual superestimada ou do quanto de álcool são capazes de ingerir antes de cair nocauteados. A felicidade dessas pessoas que seguem suas vidas celebrando qualquer motivo é remarcável. Essa alegria, essa felicidade tão convicta e superficialmente profunda e alcançada tão simplesmente é algo que definitivamente suscita inveja (mas com um coração que se satisfaz com coisas tão rudes e elementares… como afinal não ser feliz?). Não se ocupam verdadeiramente das questões essenciais e o mundo que eu e minha meia dúzia de leitores nos ocupamos seria sem dúvida um mundo completamente estrangeiro para os efusivos brasileiros típicos. Celebram hoje, com cerveja e brega, a Independência do Brasil. De fato somos independentes. Somos tão inteiramente livres que podemos impor nosso ruído aos outros, a qualquer hora, com a completa anuência (assinada com sua omissão) do poder público. Somos livres para construir um espaço público imundo onde só se transita de modo transgressor por meio das facilidades que as conexões nos permitem. Somos livres para eleger um partido que convocou o voto de pessoas humildes e analfabetas, mas que as manteve pobres e incapazes de crítica (a fim de escravizar-lhes a opinião). Somos independentes para eleger um palhaço analfabeto para presidir a Comissão de Educação (dois, se contarmos adequadamente). Fomos e somos livres para ver realizado o sonho da promoção irrestrita de direitos que não leva à conclusão elementar do dever do respeito ao direito do outro. Como porcos nos revolvemos na pocilga de nossa liberdade. Viva nossa independência conquistada. Viva o 07 de setembro.

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Sobre Pedro Gabriel

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4 respostas para 07 de Setembro

  1. Carla Graziela disse:

    O coração chega ficou mais leve…o alívio foi todo meu!=)

  2. Caro Pedro.

    Solicito permissão para endossar as suas lúcidas reflexões. Aqui onde habito, sítio pre histórico de Olinda, a turba já invade as ruas sujas e degradadas da ignorada e cultuada História de Pernambuco com gritos, urros, urina e demais dejetos de mentes massificadas e manipuladas. Com seus grunidos histéricos fazem a sua revolução suína. Analfabetos e mal educados rasgam a fantasia de bolsistas da política social da nação verde, amarela e vermelha de uma estrela inculta e sem luz própria.
    Muito obrigado.

    Marcos F. G. Cordeiro

    • Pedro Gabriel disse:

      Caríssimo Marcos. Empatia é coisa para a qual não se precisa permissão. Somos membros de uma família cada vez mais restrita. Ingressamos num tempo de profundo obscurecimento intelectual onde não só não se valoriza a cultura, a educação como podemos ser punidos por pensar criticamente. Essa (e nenhuma outra) é a verdadeira idade das trevas (como argumenta o belíssimo filme do canadense Denys Arcand, no filme de mesmo nome). Seja sempre bem vindo e ajude-nos a compartilhar essas ideias. Um abraço. Pedro

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