Breve Ponderação sobre o Trem de Ascenso

Trem de Alagoas, texto de Ascenso Ferreira ilustrado por Guazzelli, publicado pela Martins Fontes

Composto com a mesma cadência do som do comboio arrastando-se melodiosamente pelos trilhos, o poema de Ascenso além da beleza prosódica traz o registro de um mundo lindo que não mais existe. O entremeio obscuro (entre os iluminados das cidades) onde cabiam suposições mágicas de Caiporas e Pais-da-Mata foi substituído por um universo de certezas de consumo: o mundo iluminado dos shoppings centers onde o que falta pode ser comprado. Sabores de frutas boas de chupar, de amores perdidos no translado e os tesouros das furnas do tempo onde se arqueia nossa lembrança são o doce conteúdo dessa viagem que se torna ainda mais agradável ao entendimento na voz de Paulo Autran. Recomendo a leitura e escuta simultâneas. Bom translado.


TREM DE ALAGOAS

Ascenso Ferreira

“O sino bate,

o condutor apita o apito,

Solta o trem de ferro um grito,

põe-se logo a caminhar…

– Vou danado pra Catende,

vou danado pra Catende,

vou danado pra Catende

com vontade de chegar…

Mergulham mocambos,

nos mangues molhados,

moleques, mulatos,

vêm vê-lo passar.

Adeus !

– Adeus !

Mangueiras, coqueiros,

cajueiros em flor,

cajueiros com frutos

já bons de chupar…

– Adeus morena do cabelo cacheado !

Mangabas maduras,

mamões amarelos,

mamões amarelos,

que amostram molengos

as mamas macias

pra a gente mamar

– Vou danado pra Catende,

vou danado pra Catende,

vou danado pra Catende

com vontade de chegar…

Na boca da mata

ha furnas incríveis

que em coisas terríveis

nos fazem pensar:

– Ali dorme o Pai-da-Mata

– Ali é a casa das caiporas

– Vou danado pra Catende,

vou danado pra Catende

vou danado pra Catende

com vontade de chegar…

Meu Deus ! Já deixamos

a praia tão longe…

No entanto avistamos

bem perto outro mar…

Danou-se ! Se move,

se arqueia, faz onda…

Que nada ! É um partido

já bom de cortar…

– Vou danado pra Catende,

vou danado pra Catende

vou danado pra Catende

com vontade de chegar…

Cana caiana,

cana rôxa,

cana fita,

cada qual a mais bonita,

todas boas de chupar…

– Adeus morena do cabelo cacheado !

– Ali dorme o Pai-da-Matta !

– Ali é a casa das caiporas

– Vou danado pra Catende,

vou danado pra Catende

vou danado pra Catende

com vontade de chegar…”

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Sobre Pedro Gabriel

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