Paiversão (père-version)

Nos idos tardios do ano de 1969 (apenas alguns meses depois do intenso 68), Lacan redige um escrito de extensão miúda no qual tematiza as utopias comunitárias e opina sobre seu fracasso (delas, das utopias de massa). Para Lacan, o tal “fracasso das utopias comunitárias” se associa ao afundamento da singularidade: o efeito de anonimato que elas provocam como efeito dissociativo da individualidade à medida que o ideal visado (em suas nobilíssimas intenções, em nome das quais se faz, aliás, as piores coisas) anula o que é particular a cada sujeito ao inserí-lo como “mais um” em uma classe ordinária (estudantes, operários, gays ou qualquer outro gruopo pretensamente opromido por sua contraparte). A parentalidade, expressa hoje numa família conjugal, que um dia foi o que nos separou da horda erigindo um totem subjetivo (a interdição do incesto) seria hoje um “resíduo”, um subproduto, um resto inassimilável “na evolução das sociedades” onde se tomaria corpo “a irredutibilidade de uma transmissão (…) de uma constituição subjetiva”, de algo diferente da “vida segundo as satisfações das necessidades”. Essa é a grande missão das famílias, o que ficou em aberto após a demissão do Pai. Uma responder a essa questão seria, ao meu ver, o que autorizaria como transmissoras de um legado quaisquer novas configurações familiares sejam elas homo, hetero, pluri ou pan-parentais: que estejam todos implicados na relação com um desejo que não seja anônimo e com a transmissão de alguma noção de limite, um ponto de impossibilidade. É isso, aliás, o que se questiona na formação das novas conjugalidades e que seus postulantes insistem em não ouvir ou não compreender ou não responder. Não é mais uma prova de moralidade o que se encontra em questão, mas o altíssimo preço da demissão do Pai que se vê, entre outras coisas, na adicção, na violência urbana e nos caos das grandes cidades libertas do fantasma paterno e de qualquer obrigação de obediência à regulação social. Eis o paraíso criado pelo “anonimato” da singularidade. Eis a nossa sociedade perversa onde cada experiência é um convite à formação de uma versão própria do pai (o que lamentavelmente restou de nossa silgularidade). Esse é o mundo tal qual temos a infelicidade de conhecer. Abaixo, um dos entusiastas do Maio de 68, um dos muitos jovens a procura de um pai, renunciando ao argumento, à palavra e, supondo-se saber-do-bem, autorizando-se soberanamente: o chamado para uma nova organização.

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Sobre Pedro Gabriel

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