Nós Cavalões… também correndo…

A palavra dos comentadores e biógrafos (dentre eles o próprio autor, o menos autorizado a meter o dedo neste impasse) fiam a certeza de que o poema a seguir foi escrito durante a “II Grande Guerra” numa epifania de almoço quando o Manuel Bandeira fazia sua refeição no Jóquei-Clube do Rio de Janeiro, assistindo corridas. Meu coração, no entanto, estalou de certeza (desde o primeiro contato com esta jóia) de que o poema abaixo, contradizendo talvez o próprio poeta, é um belo réquiem da juventude que se esvai: tanto a individual (vivida como nostalgia e acerto de contas) quanto a histórica desse bordel a que chamamos cinicamente de nação. A oposição básica que se apresenta nas linhas dessa epifania, mais do que opor humanos e eqüinos, dialetiza o vigor da juventude vivida na intensidade de um corpo em seu auge contra o peso da idade que nos arrasta a modos mais serenos de vida. Imagino o poeta na sacada de um casarão observando meninos correndo com uma bola e, no seu estranhamento de homem (como eu) desde sempre velho, construindo uma oposição que parece muito mais imediata a Bandeira. Lembremos que o escritor, desde moleque, amargava as limitações impostas por sua frágil constituição: para Manuel Menino, desde sempre, o pau-de-sebo, o burro brabo e os banhos de mar eram-lhe lastimavelmente interditos. Foi esse aliás o mote de composição de “Vou-me Embora pra Pasárgada” e responde por muito de sua poesia oceânica. A mim ela toca de modo muito especial agora que noto que a Juventude é uma flor que já feneceu e que me encontro há poucos meses de chegar no exato ponto que Dante chamou de “nel mezzo del cammin di nostra vita”. Nesse interlúdio, no meio de uma ponte erguida sobre o vazio da existência, olho para o perdido passado como para um grande mistério que passou sem solução. Resta-me o futuro de Cavalão que corre célere para a morte, que é pra onde tudo marcha. O farei, no entanto, desprovido da indignidade de quem se rebela contra o incontornável do que somos. Pretendo passar por esse mundo intenso tão isento quanto possa da militância nos vãos combates imaginários e, silencioso e pacifico, estarei bem pronto para a visita da indesejada das gentes que virá finalmente fechar meus calejados olhos endurecidos de horror. Sim poeta. A vida passa, passa… e também para mim a mocidade foi embora.

RONDÓ DOS CAVALINHOS

“Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo…
Tua beleza, Esmeralda,
Acabou me enlouquecendo.

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo…
O sol tão claro lá fora
E em minhalma — anoitecendo!

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo…
Alfonso Reys partindo,
E tanta gente ficando…

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo…
A Itália falando grosso,
A Europa se avacalhando…

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo…
O Brasil politicando,
Nossa! A poesia morrendo…
O sol tão claro lá fora,
O sol tão claro, Esmeralda,
E em minhalma — anoitecendo!”

(por Manuel Bandeira)

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Sobre Pedro Gabriel

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4 respostas para Nós Cavalões… também correndo…

  1. Sessentão que sou, essa bela reflexão poética de Bandeira nos remete, irremediavelmente, para a certeza da finitude carnal. Porém, após o anoitecer, creio que havará um novo amanhecer, mesmo que poético, para a minha alma.

  2. Carolis disse:

    Bom saber do legítimo de ti no lirismo da tua temporalidade.

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