Web Logs e os Não-sem-danos da vida


(Crédito da Foto: Stefany Alves em http://donttouchmymoleskine.com/)

O amor não é sem danos. Escrever menos ainda. Talvez exista uma incontornável semelhança entre essas duas malditas atividades onde o agente é muito mais agido, muito mais asujeitado (ou assujeirado) que sujeito num processo onde a autoria pode ser constantemente contestada. Que os mais pudicos segurem seus queixos, pois não desacreditei no amor. Entretanto, como já disse outras vezes por aqui mesmo, a existência está cheia de demonstrações da vulgaridade como ele é atualmente vivido. Escolhe-se o parceiro por exterioridades, pelas posses, pela aparência física, por ter músculos demais, inteligência de menos, pelas vantagens trazidas por uma família. A partilha de afinidades profundas e o prazer da convivência parece ser o que menos importa. Nesse vasto mundo mercantil o amor (outrora refúgio dos alaridos deste mundo) tornou-se ponto de venda de si próprio e o compromisso (namoro, matrimônio) uma alta masmorra onde não chega a experiência de se tornar magnífico pelo sopro do encantamento. Entretanto sou otimista e sei que outras coisas lesam nossa vida. É onde quero chegar com essa litura aparentemente amarga.

Meu retorno à Universidade tem me trazido muitos dons. O contato com a diferença é sempre um convite à doçura e sinto que os anos têm sido generosos comigo no sentido de aplacar a radicalidade que eu trouxe comigo do alto das montanhas e que aqui nas franjas do mar vai se dissipando aos poucos. De meu árido sertão (de chão duro e corações sem ternura) trouxe uma certa intransigência de espírito que era muralha e hoje é apenas uma leve sombra a aparecer ocasionalmente (e que em breve não será mais que lembrança).

Um dos maiores presentes desse meu retorno foi o contato com os Estudos sobre as Narrativas. Para além das complicadas definições técnicas, o estudo das Narrativas parece bem definido por Karen Blixen (e registrado por Hannah Arendt em Man in Dark Times): “All sorrows can be borne if you put them into a story or tell a story about them”. Frase curta, mas muito expressiva do sentido geral e da natureza terapêutica do contar histórias: seja a um outro numa roda de causos, seja a um ob(de)jeto estando deitado num divã, seja a si próprio num diário ou web log.

Parece que finalmente me direciono aonde quero ir.

Unindo apresentei duas pontas: os pedaços que o exercício cotidiano da vida nos arranca e a potencialidade narrativa. Tento agora juntá-los em um nó.

Não à toa abri recentemente um Blog, não casualmente inaugurei esse espaço onde possa gritar (como bem disse Fernanda outro dia). Por isso talvez escreva transformando a matéria turva da vida em lituras dotadas de algum sentido onde se possa navegar: “Por isso gosto tanto de me contar. Por isso me dispo, por isso me grito, por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias” (o leitor atento notará as aspas drummondianas).

Os blogs hoje estão mais vivos do que nunca. O conteúdo médio subiu muito depois da evasão dos exibicionistas que transformaram a blogosfera num oceano de informações vazias e de autoria tão distorcida quanto o caráter de quem escrevia. Mais que qualquer outro meio, os blogs se prestam a divulgação e troca de idéias. De quebra servem para que possamos nos reinventar constantemente a partir do confronto profundo e ao mesmo tempo sereno com o que tem sido nossa trajetória.

Um exemplo magnífico da força dos blogs chegou ao meu conhecimento há um par de dias atrás quando Ariane Couto, que não é blogueira, decidiu postar no blog de uma amiga sua litura mais dolorida expressando com sua vida e sua letras (tal qual o Marquês de Sade e sua Quill manchada de sangue na Bastilha) tudo o que tentei esboçar aqui nessa postagem. Ariana é um ser humano de extraordinárias força e lucidez. Eu a conheci há cerca de dois anos e tem sido uma amiga constante (coisa rara num mundo como o de hoje). Seu texto se chama Nossa Música e foi muito oportunamente publicado numa sessão chamada Fratura Exposta e suas observações sobre o mesmo podem ser deixadas lá  no endereçoou aqui. De ambas as formas chegará à autora.

Segue o link: http://donttouchmymoleskine.com/fratura-exposta-por-ariana-couto/

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Sobre Pedro Gabriel

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