Aviso de Adiamento de Evento

Prezados, em virtude do efeito das chuvas e da incerteza de como estará a cidade, acabo de receber um comunicado da comissão organizadora do evento Fantasias e Fetiches que deveria ocorrer amanhã pela manhã na FAFIRE informando do adiamento do mesmo. A providência foi tomada em respeito aos que já efetuaram o pagamento e que poderiam virtualmente não ter condições de locomoção dependendo da localidade de residência (incluindo as pessoas que vêm de João Pessoa). Espera-se que na segunda a comissão reúna-se e sincronize os horários possíveis dos palestrantes com os de disponibilidade do auditório.

Cartaz - Fantasias e Fetiches

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Psicanálise no Ar

radioHá exatos 75 anos, a BBC de Londres transmitia Freud para o mundo. Refugiado na Inglaterra dos horrores da guerra que assolavam o mundo pela da causa alemã, Freud anunciou em ondas curtas uma breve síntese do que até ali tinha sido sua produtiva vida e agenial descoberta de um método para perscrutar nosso Inconsciente: seu pedaço de boa sorte. Amanhã, dia 15, estarei eu incumbido do mesmo dever. Sem pretensão alguma de produzir a mesma genialidade do sábio austríaco, carregarei comigo ao menos o desejo igual de levar a Peste. O debate circulará pelos temas da vindoura palestra sobre Fantasias e Fetiches e pode ser acompanhada ao vivo pelo link da Rádio Clube Recife 720 AM às 16h no programa Cena Livre. Aguardo-vos amanhã. Abaixo o registro da voz de Freud na BBC.

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Fantasias e Fetiches

Cartaz - Fantasias e Fetiches

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História (sempre) mal contada… (por Mia Couto)

passado

“História de um homem é sempre mal contada. Porque a pessoa é, em todo o tempo, ainda nascente. Ninguém segue uma única vida, todos se multiplicam em diversos e transmutáveis homens.

Agora, quando desembrulho minhas lembranças eu aprendo meus muitos idiomas. Nem assim me entendo. Porque enquanto me descubro, eu mesmo me anoiteço, fosse haver coisas só visíveis em plena cegueira.

Nasci ninguém, fui eu que me gravidei. Meus pais negaram a herança das suas vidas. Ainda sujo dos sangues me deixaram no mundo. Não me quiseram ver transitando de bicho para menino, ranhando babas, magro até na tosse.”

(por Mia Couto, fragmento de “Cada Homem é uma Raça”)

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Mães: origem e fim do mundo

Origin-of-the-World

“L’Origine du monde” (A Origem do Mundo), famoso quadro pintado pelo realista Gustave Courbet em 1866 sob encomenda do diplomata turco otomano Khalil-Bey.

Hoje, no dia das mães, celebramos aquela associada à vida: a porta do mundo por onde o adentramos em uma fantasia coletiva de ponto de convergência e segurança tão bem expressa por Guimarães Rosa no fragmento abaixo.

“Mas Diadorim mais não supriu o que mais não explicava. E, quem sabe para deduzir da conversa, me perguntou: –’Riobaldo, se lembra certo da senhora sua mãe? Me conta o jeito de bondade que era a dela…’. Na ação de ouvir, digo ao senhor, tive um menos gosto, na ação da pergunta. Só faço, que refugo, sempre quando outro quer direto saber o que é próprio o meu no meu, ah. Mas desci disso, o minuto, vendo que só mesmo Diadorim era que podia acertar esse tento, em sua amizade delicadeza. Ao que entendi. Assim devia de ser. Toda mãe vive de boa, mas cada uma cumpre sua paga prenda singular, que é a dela e dela, diversa bonda de. E eu nunca tinha pensado nessa ordem. Para mim, minha mãe era a minha mãe, essas coisas. Agora, eu achava. A bondade especial de minha mãe tinha sido a de amor constando com a justiça, que eu menino precisava. E a de, mesmo no punir meus demaseios, querer-bem às minhas alegrias. A lembrança dela me fantasiou, fraseou –só face dum momento –feito grandeza cantável, feito entre madrugar e manhecer.” (Grande Sertão: Veredas, pp. 50-51)

Há, no entanto, uma outra mãe a celebrar, essa outra verdadeiramente esquecida, a mãe celebrada no Poema Negro por Augusto dos Anjos: a mãe “carnívora e assanhada” que tudo que acha no caminho, come… “Sai para assassinar o mundo inteiro, e o mundo inteiro não lhe mata a fome!”, a mãe que serve fogo quando temos sede, a única mãe do mundo que verdadeiramente é capaz de trazer paz e serenidade, a mãe cujo entendimento consiste na única tarefa válida de toda a filosofia: a Mãe Morte. E assim seguindo, equilibrados entre os braços dessas duas mães, por entre fantasias de paraíso e esperanças de eternidade, amando a mãe nascimento e esquecidos da mãe pacificadora, prosseguimos riocorrentemente em nossa eterna e corajosa missão de a cada dia fazer do mundo o que ele pode ser: nonada, recomeço.

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Fragmento de “Grande Sertão: Veredas” do imortal Guimarães Rosa

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A Montanha dos Sete Abutres

12943“Disseram que o filme foi um fracasso, porque a esposa se revela como um monstro frio – nenhuma mulher convidaria o marido para ver esse filme. Acredito mais numa outra razão para o fracasso, a de que o verdadeiro canalha não seja nem Kirk Douglas no papel do repórter, nem Jan Sterling no papel da esposa, mas o público. O jornalista é aquele que dá comida à fera, mas não é ele mesmo a fera. É está a causa do fracasso: ninguém quer ver a si mesmo no papel de canalha. Como é que se pode despertar a curiosidade das pessoas para ver o filme, se o que se mostra a elas é a que bestiais conseqüências a curiosidade leva?”. Este depoimento foi dado por Billy Wilder, durante uma entrevista, sobre “A Montanha dos Sete Abutres”, brilhante filme de 1951 que naufragou nas bilheterias e na divulgação geral da imprensa. Foi posteriormente relançado com um segundo título como tentativa de burlar o fiasco das bilheterias em Hollywood: Ace in The Hole se tornaria The Big Carnival. O filme é uma obra prima sobre a condição humana e as coisas terríveis que se pode fazer pelo que o pop-artista Andy Warhol chamou de “os 15 minutos de fama”. Como um Nelson Rodrigues apresenta o que há de mais cru e dissimulável em nossa condição e não deixa de ser um dado interessante que um filme que tanto chocou as pessoas e a classe jornalística hoje represente bem menos do que se espera de qualquer grande veículo de imprensa. Alguns diretores da Hollywood clássica lançaram seus olhares para o que há de inescrupuloso em nós salientando seus traços imaginando, talvez, que a caricatura do presente os projetasse no que virtualmente seria nossa espécie num possível futuro próximo: desse movimento surgiram não somente “A Montanha dos Sete Abutres” mas também “Juventude Transviada” (Nicholas Ray, 1955), “Sindicato de Ladrões” (Elia Kazan, 1954) e “Assim Caminha a Humanidade” (George Stevens, 1956). Sem subtrair em nada a originalidade temática, a grandiosidade dramática e a perfeição técnica desses filmes (do de Wilder, sobretudo), olhando em retrospecto não é possível mais se escandalizar com nada do que nesses filmes é mostrado: Jim Stark e Jett Rink, personagens de James Dean nos filmes referidos são valentões amorosos que encontram o respeitam o limite da própria maldade recorrendo a um pai para dar sentido às suas vidas, Johnny Friendly, chefe do sindicato das docas parece mais um monge budista se comparado à verdadeira quadrilha que se tornou a atividade sindical no mundo atual e, finalmente, Charles Tatum, personagem de Kirk Douglas, causaria risos por sua ingenuidade e pudores se assistido hoje na redação de qualquer grande veículo de comunicação atual (hoje tornada uma montanha de 700 abutres). Ao que parece o máximo que a imaginação literária de diretores geniais foi capaz de afundar na miséria de nossa condição, não chegou nem perto da profundidade do charco onde a contemporaneidade inescrupulosa, violenta e cínica encontra-se atolada.

Título Original: Ace in the Hole / The Big Carnival
Diretor: Billy Wilder
Elenco: Kirk Douglas, Jan Sterling, Robert Arthur, Porter Hall, Frank Cady, Richard Benedict, Ray Teal, Lewis Martin, John Berkes, Frances Dominguez.
Produção: Billy Wilder
Roteiro: Walter Newman, Lesser Samuels, Billy Wilder
Fotografia: Charles Lang
Trilha Sonora: Hugo Friedhofer
Duração: 111 min.
Ano: 1951
País: EUA
Gênero: Drama / Noir
Estúdio: Paramount Pictures

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Poema Negro (por Augusto dos Anjos)


“Para iludir minha desgraça, estudo.
Intimamente sei que não me iludo.
Para onde vou (o mundo inteiro o nota)
Nos meus olhares fúnebres, carrego
A indiferença estúpida de um cego
E o ar indolente de um chinês idiota!

A passagem dos séculos me assombra.
Para onde irá correndo minha sombra
Nesse cavalo de eletricidade?!
Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:
— Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?
E parece-me um sonho a realidade.

Em vão com o grito do meu peito impreco!
Dos brados meus ouvindo apenas o eco,
Eu torço os braços numa angústia douda
E muita vez, à meia-noite, rio
Sinistramente, vendo o verme frio
Que há de comer a minha carne toda!

É a Morte — esta carnívora assanhada —
Serpente má de língua envenenada
Que tudo que acha no caminho, come…
— Faminta e atra mulher que, a 1 de janeiro,
Sai para assassinar o mundo inteiro,
E o mundo inteiro não lhe mata a fome!

Nesta sombria análise das cousas,
Corro. Arranco os cadáveres das lousas
E as suas partes podres examino. . .
Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,
Na podridão daquele embrulho hediondo
Reconheço assombrado o meu Destino!

Surpreendo-me, sozinho, numa cova.
Então meu desvario se renova…
Como que, abrindo todos os jazigos,
A Morte, em trajos pretos e amarelos,
Levanta contra mim grandes cutelos
E as baionetas dos dragões antigos!

E quando vi que aquilo vinha vindo
Eu fui caindo como um sol caindo
De declínio em declínio; e de declínio
Em declínio, com a gula de uma fera,
Quis ver o que era, e quando vi o que era,
Vi que era pó, vi que era esterquilínio!

Chegou a tua vez, oh! Natureza!
Eu desafio agora essa grandeza,
Perante a qual meus olhos se extasiam…
Eu desafio, desta cova escura,
No histerismo danado da tortura
Todos os monstros que os teus peitos criam.

Tu não és minha mãe, velha nefasta!
Com o teu chicote frio de madrasta
Tu me açoitaste vinte e duas vezes…
Por tua causa apodreci nas cruzes,
Em que pregas os filhos que produzes
Durante os desgraçados nove meses!

Semeadora terrível de defuntos,
Contra a agressão dos teus contrastes juntos
A besta, que em mim dorme, acorda em berros
Acorda, e após gritar a última injúria,
Chocalha os dentes com medonha fúria
Como se fosse o atrito de dois ferros!

Pois bem! Chegou minha hora de vingança.
Tu mataste o meu tempo de criança
E de segunda-feira até domingo,
Amarrado no horror de tua rede,
Deste-me fogo quando eu tinha sede…
Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!

Súbito outra visão negra me espanta!
Estou em Roma. É Sexta-feira Santa.
A treva invade o obscuro orbe terrestre.
No Vaticano, em grupos prosternados,
Com as longas fardas rubras, os soldados
Guardam o corpo do Divino Mestre.

Como as estalactites da caverna,
Cai no silêncio da Cidade Eterna
A água da chuva em largos fios grossos…
De Jesus Cristo resta unicamente
Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente
Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!

Não há ninguém na estrada da Ripetta.
Dentro da Igreja de São Pedro, quieta,
As luzes funerais arquejam fracas…
O vento entoa cânticos de morte.
Roma estremece! Além, num rumor forte,
Recomeça o barulho das matracas.

A desagregação da minha idéia
Aumenta. Como as chagas da morféa
O medo, o desalento e o desconforto
Paralisam-se os círculos motores.
Na Eternidade, os ventos gemedores
Estão dizendo que Jesus é morto!

Não! Jesus não morreu! Vive na serra
Da Borborema, no ar de minha terra,
Na molécula e no átomo… Resume
A espiritualidade da matéria
E ele é que embala o corpo da miséria
E faz da cloaca uma urna de perfume.

Na agonia de tantos pesadelos
Uma dor bruta puxa-me os cabelos,
Desperto. É tão vazia a minha vida!
No pensamento desconexo e falho
Trago as cartas confusas de um baralho
E um pedaço de cera derretida!

Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme.
Eu, somente eu, com a minha dor enorme
Os olhos ensangüento na vigília!
E observo, enquanto o horror me corta a fala,
O aspecto sepulcral da austera sala
E a impassibilidade da mobília.

Meu coração, como um cristal, se quebre
O termômetro negue minha febre,
Torne-se gelo o sangue que me abrasa,
E eu me converta na cegonha triste
Que das ruínas duma casa assiste
Ao desmoronamento de outra casa!

Ao terminar este sentido poema
Onde vazei a minha dor suprema
Tenho os olhos em lágrimas imersos…
Rola-me na cabeça o cérebro oco.
Por ventura, meu Deus, estarei louco?!
Daqui por diante não farei mais versos.”

(por Augusto dos Anjos)

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