Saramago e a Irrelevância da Literatura (por Fernando da Mota Lima)

jose-saramago“Apesar da idade e da doença, José Saramago continua ativo. Vem agora ao Brasil lançar seu novo romance, que é apenas um pretexto para que se pronuncie sobre questões políticas e inquietações humanas que seus leitores não têm idéia de como enfrentar. As aparições públicas de escritores de prestígio como Saramago e a natureza do discurso que desfiam para a mídia evidenciam a irrelevância da literatura no mundo contemporâneo. Mesmo escritores que vivem antes de tudo para a literatura e nela efetivamente acreditam, não dão ênfase em suas falas públicas a questões de natureza estética ou literária. Suponho que gostariam de fazê-lo, que prezariam discutir a literatura enquanto tal ou as possibilidades de esta interferir na ordem prática do mundo enquanto discurso irredutível ao da política, da economia ou ainda da pura curiosidade mundana do público e da mídia ávida de mercadoria. O fato, porém, é que se pronunciam sobre tudo, ou quase tudo, e bem pouco, senão nada, sobre literatura.

A última aparição pública de Saramago reitera o discurso previsível, tudo que acima grosseiramente esbocei. Mais uma vez critica a crueldade do capitalismo e respalda sua crítica em Marx ou numa concepção socialista de sociedade e organização dos grupos humanos. Nada a objetar quanto ao diagnóstico. Também considero o capitalismo um sistema econômico cruel, gerador de atrocidades e misérias cotidianas. O que não consigo é seguir Saramago no terreno de suas convicções terapêuticas, para valer-me aqui de mais um termo da linguagem clínica. Se é verdade que o capitalismo é portador de todos os horrores incansavelmente denunciados por Saramago, e nesse sentido a obra de Marx preserva sua atualidade substancial, não há como fugir à evidência histórica de que comunismo e possíveis variações socialistas não funcionam. Não sei se há alguma tintura de humor ou auto-ironia na justificativa que agora encontra para seu comunismo anacrônico: confessa-se ele um comunista hormonal. Gostei da designação, que leio um tanto na veia irônica ou humorística.

Penso hoje com mais clareza que o comunismo malogrou e sempre malogrará por ser incompatível com as paixões humanas mais poderosas, aquelas que ontologicamente definem nossa condição. Sei bem que a teoria comunista reivindica a natureza histórica do ser humano. Trocando em miúdos, não existe natureza humana, existem formas históricas de ser humano. Num certo sentido, isso é sem dúvida verdadeiro. Valores humanos fundamentais, concebidos por conservadores e reacionários como se fossem investidos de eternidade, são comprovadamente transitórios, ou manifestam-se mediante variações históricas, fruto de modos particulares de ser observáveis em determinadas épocas e lugares.

Entretanto, já não duvido de que ao lado, e sobretudo acima disso, persistem características humanas que autorizam falar-se de uma natureza humana compreendida enquanto entidade constante, modo substancial de ser apreensível no conjunto da história humana. Presumo que Freud tinha isso em mente ao declarar seu ceticismo diante dos experimentos sociais então em processo na União Soviética governada por Stálin quando  escreveu O Mal-estar na Civilização. Atendo-me ainda a Freud, acredito haver no ser humano uma componente de agressividade indomesticável pela civilização. Igualmente acredito na nossa natureza irredutivelmente egoísta. Muito gostaria de acreditar nos ideais generosos teimosamente sustentados por Saramago. A evidência histórica, antes de tudo a evidência de minha experiência direta, provam-me o contrário.

É irrefutável a força condicionadora da sociedade ou do sistema econômico em muitas das ações humanas que traduzem o que em nós existe de bom e de ruim. O que de modo algum endosso é a convicção dos que atribuem nossa natureza a fatores puramente sociais. Querem dizer, mesmo quando assim não se pronunciam, que nossa maldade é socialmente adquirida, tem raízes puramente ambientes. Não penso assim. Seguindo Freud, penso haver um ingrediente biológico na nossa destrutividade. Portanto, um ingrediente irredutível à civilização ou a toda ideologia generosa empenhada em estabelecer neste mundo uma modalidade de organização humana fundada na solidariedade e em valores prevalentemente positivos. É uma utopia generosa, que de resto me seduziu na juventude, mas sei hoje irrealizável.

Igualmente longe de mim endossar o pessimismo daqueles que vêem o ser humano como mau, como investido de qualidades apenas negativas. Penso seguir ainda a lição de Freud quando acredito não numa natureza humana exclusivamente negativa, ou positiva, mas sim ambivalente. Em síntese, é esta a substância de minha convicção relativa à natureza humana: ela é ambivalente e as manifestações dessa ambivalência dependem tanto de fatores inatos quanto adquiridos. Sei que isso é ainda muito vago, mas não sei de nenhum iluminado ou de nenhuma teoria que consistentemente estabeleça a fronteira e a proporção que cabem a um e outro, àquilo que é inato assim como adquirido. Durma-se na companhia dessa gente. Por isso deduzo haver algo de sensato na minha cama, que nunca acolheu companhia permanente – além da minha, claro.

Catando os grãos de milho da literatura nesse terreiro onde de tudo se fala, menos dela, qual é mesmo o título do romance que Saramago veio lançar no Brasil? Não me lembro. Salvo engano, não foi mencionado na reportagem que li na Folha de S. Paulo. Sei que o título tem algo a ver com elefantes. Serão acaso companhias desejáveis? Evocando  Cioran, prefiro ainda a dos misantropos. Não são lá flor que se cheire, mas têm a virtude de não gostar de seres humanos. Piores, bem piores, são os humanos que amam apenas seres de outras espécies, notadamente a dos gatos e cachorros. Tenho poucas razões para louvar a espécie humana e os estragos que ela impõe a essa terra devastada que habitamos. Mas falo afinal dos meus semelhantes. Querendo ou não, e bem pouco quero, é neles que me reconheço, neles vibram os triunfos e misérias de minha condição. Apesar do ruído pavoroso que entre nós produzimos, tudo isso faz mais sentido do que o miado dos gatos e o latido dos cachorros. Fico portanto com meus humanos.”

(Texto escrito em meados de 2009 por Fernando da Mota Lima que era então professor de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco, de uma antiga e extinta lavra de educadores letrados, eruditos e dotados de uma pensamento crítico que funcionava acima de qualquer moralismo ou derivados, tal como o contemporâneo ativismo. Escreve graciosa e cotidianamente em seu extraordinário blog: http://fmlima.blogspot.com.br/)

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Poema da Gare do Astapovo (por Mario Quintana)

Tolstói, antes de fugir de casa, em foto registrada por Prokudin-gorsky em 1908

“O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo,
Contra uma parede nua…
Sentou-se… e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali à sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A Morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta…)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu…
Ele fugiu de casa…
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade…
Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância!”

maquintana

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O dia de que mulher?

ct-tempo-ilusao-plataoNão há somente beleza na afirmação de Platão de que “o tempo é a imagem móvel da eternidade”. Há também, nessa postulação de capital importância, a menor síntese do ocidente em seu percurso oscilante entre uma e outra proposta de organização do mundo. Quando diz Platão que o tempo em seu devir é cópia, simulacro ou ainda imagem, o que está posto é que tempo, em sua característica mutável, é menor que a eternidade que o define e conceitua. A eternidade, o fim perfeito da História, em sua imutabilidade, seria aquilo que organiza e guia o homem presente até o fim histórico. Se há um fim perfeito e previsível da humanidade, se o mundo pode ser melhor e mais organizado, se já se sabe de saída aonde termina a História, o homem presente pode ser massacrado em sua liberdade, criatividade e inventividade em nome da implantação do modelo imutável. Sendo o tempo menor que a eternidade, não há outra postura senão a suspeita odiosa quanto à ação do pensamento que a tudo põe a nú apresentando a incompossibilidade de várias de nossas melhores intenções. Não à toa, percebendo a fina semelhança entre uma e outra proposta, Nietzsche chamará o cristianismo de platonismo popular. De fato, ambas as propostas supõem um final perfeito dado ao bom e ao justo por meio da premiação suas boas obras, daquelas que implantam no tempo móvel aspectos da eternidade imóvel, ou seja, daqueles que, conhecendo o final dos tempos, sabem com precisão clarividente para onde marchamos e pode inclusive, como já dito, sacrificar o homem presente em nome do homem final (aquele maior que este). Embora a História (sobretudo a do recém findo século XX) tenha evidenciado o fundo homicida que sustenta as propostas messiânicas, elas, não obstante, retornam como pulga (conforme imagem do mesmo Nietzsche). Não à toa, Brecht dirá em uma de nietzche-by-fernandessuas peças que o fascismo é uma cadela eternamente no cio. Superado o totalitarismo eclesiástico que, supõe-se, determinou formas perfeitas de pensamento, linguagem e ação durante a terça parte de nossa História escrita, uma nova forma de totalitarismo ressurge todos os dias diante de nossos já tão massacrados narizes. Não sem a anuência coletiva (sem a qual não se faz servidão), ignorando tudo o que já se discutiu em Filosofia, Psicanálise e (sobretudo) nas antevisões proféticas dos nossos melhores autores literários, ousa-se novamente colocar em pauta em escala global propostas de um intervencionismo pleno que nos planifica em todas as esferas: econômica, psicológica, linguística, moral, ambiental, léxica… total. Há algo de muito sintomático em nosso percurso quando,  após infinito debate sobre os riscos do racismo, a humanidade ainda assim orienta-se para a criação de castas (seja a reinventada “raça” ou o recém criado “gênero” e suas variações), como se homens e mulheres ou pretos e brancos habitassem humanidades distintas e precisassem partilhar recursos. Há algo de muito errado no mundo quando o Filósofo abdica de sua tarefa fundamental (a de pôr em marcha a ação do pensamento) e passa a ser o promotor de uma práxis irrefletida: “- Não pensem, ajam. Tudo já foi pensado, mapeado, determinado. Sabemos exatamente quais as palavraso-pensador e tendências devem ser extirpadas de nosso mundo. Há palavras que não podem ser ditas, livros que não podem ser lidos, ideias associadas ao mal. Sigam-me, eu os conduzirei ao paraíso da boa prática, da boa ação, da paridade entre as diferenças que criamos.” Não à toa, a fim de dar nome a essa marcha, ressuscita-se o significante “Comunismo”: a modalidade mais cruel de apagamento do indivíduo em nome de uma moral de bando. Se o canceroso Capitalismo é comumente equiparado a uma selva onde devemos  enfrentar diariamente um conjunto novo de feras a fim de salvar o mais primário em nós, o Comunismo seria com justiça comparável a um deserto imenso onde não sobrevive sequer algum ímpeto de salvação pessoal: um endereço sem alma para homens sem alma. Há aí um retorno radical ao platonismo que nos torna minoritários em relação ao nosso desejo: a humanidade torna-se novamente uma criança que pede a alguém que a ensine a falar, a pensar, a escolher para fazer alguns “avanços” em direção a uma suposta perfectibilidade da história. Aqui o bem total é substituído pelo “útil”, mas não é o bem que caracteriza o platonismo como valor máximo, senão a teleologia: a crença que a humanidade “avança” em uma escala de perfectibilidade, como degraus que se sobe. Cabe aqui recordarmos o que diz Lévi-Strauss em seu brilhante “Raça e História”:

imagem-16“O desenvolvimento dos conhecimentos pré-históricos e arqueológicos tende a desdobrar no espaço formas de civilização que éramos levados a imaginar como escalonados no tempo. Isto significa duas coisas: inicialmente, que o “progresso” (se é que este termo ainda convém para designar uma realidade bem diferente daquela à qual nos dedicamos inicialmente) não é nem necessário, nem contínuo; procede por saltos, pulos, ou, como diriam os biólogos, por mutações. Esses saltos e pulos não consistem em ir sempre além na mesma direção; acompanham-se de mudanças de orientação, um pouco à moda do cavalo de xadrez, que tem sempre diversas progressões à disposição, mas nunca no mesmo sentido.cavalo-de-xadrez_17-926192448 A humanidade em progresso em nada se parece com um personagem subindo a escada, acrescentando por cada um de seus movimentos um novo degrau a todos os outros que já tivesse conquistado; evoca antes o jogador, cuja chance está dividida em muitos dados e que, cada vez que os lança, os vê se espalharem no pano, ocasionando contas bem diferentes. O que se ganha num lance se arrisca a perder no outro, e é apenas de um tempo a outro que a história é cumulativa, isto é, que as contas se somam para formar uma combinação favorável.” (Lévi-Strauss, Claude. Raça e História. In: Raça e Ciência. v. 1. São Paulo: Perspectiva, 1970. p. 245.

mulherO assunto seguiria por algumas centenas de páginas, mas dou um salto de Platão até o dia de ontem: chego, enfim, à questão do Dia 8 de Março. O modo como o dia da mulher foi celebrado com efusividade por todos os meios atualmente disponíveis, torna visíveis alguns dos sintomas da falência do debate público no momento em que nos encontramos historicamente. Associado a um efeito de onipotência promovido pelas mídias sociais (meio onde todos se acham habilitados a falar sobre a coisa pública e afirmar ou desqualificar algo por meio da simples opinião) há um mortífero automatismo psicológico que transforma o que deveria ser uma profunda e livre discussão em uma reafirmação de pressupostos impressionantemente idênticos e formulados com pequeníssimas variações. As questões sobre “o que é” ou “o que deseja uma mulher” são questões imensas para as quais é insuficiente toda a letra já produzida. Ao invés de adentrar nessa questão, resume-se a celebração a uma reafirmação de ideias comezinhas que nada dizem de específico sobre tal mistério. Dizer que a mulher é uma luta (embora soe polido e solidário) é incorreto. Reduzi-la a um embate de gênero é operar-lhe uma redução metafísica reduzindo-a a um passo numa História concebida como inadequadamente reta e perfectível: é supor uma mulher imóvel localizada na eternidade para onde marcham, como obedientes pinguins, todas as mulheres do tempo em seu devir. A mulher é um continente inalcançado, um puro enigma sob diversos aspectos, sendo o mais evidente deles a sua singularidade radical. Não existem duas mulheres que se situem do mesmo modo em relação ao mundo ou à linguagem e essa propriedade elementar da feminilidade foi sintetizada por Lacan com a afirmação de que “A Mulher” (enquanto classe ou gênero) não existe, devendo ser lida e compreendida uma a uma. Desconheço maior elogio já feito. No litoral oposto, quando lemos nos milhares de textos produzidos no dia de ontem, supondo que o percurso feminino (o tornar-se mulher) resume-se a uma determinada luta de classe ou gênero sintetizadas nas afirmações generalizantes de que mulher é a liberta, a vadia, a eleitora, a eleita, percebe-se algo de extremo mal gosto. Em relação ao que a mulher é um déficit em vias de equiparação? É deficitária em relação ao quê? Ao homem? Seu percurso deve ser o mesmo? Seria por acaso a mulher uma espécie de homem que ainda não se fez historicamente? É isso que se celebrou ontem, os passos de uma aproximação imaginária. Deve a mulher trilhar os mesmos passos dos homens e se manter em silêncio à sombra de lideranças que lhes dizem o que desejar para chegarem ao final platônico da História? Tenho dúvidas profundas sobre a validade de “lisonjeios” dessa natureza, tenho dúvidas profundas se podemos supor a mulher como a história de conquistas sem colocar-lhe indevidamente no rastro dos homens. Nessas falas populistas e falsamente lisonjeiras, calcadas no politicamente correto, não há somente a demonstração pública de que não se sabe o que é uma mulher. Há algo bem pior: há um não querer saber.

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O Amor e as Abelhas

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Lev Nikolayevich Tolstoi, conhecido na língua de Camões como Leon ou Liev Tolstói

“Com as coisas podemos comportar-nos sem amor: podemos cortar árvores, fazer tijolos, forjar aço sem amor; mas com seres humanos não podemos comportar-nos sem amor, assim como não podemos lidar sem precaução com as abelhas”
(Ressurreição – Liev Tolstói)

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Carta 36 (de Fernando Pessoa a Ophélia de Queiroz)

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Ophelinha,

Agradeço a sua carta. Ela trouxe-me pena e alívio ao mesmo tempo. Pena, porque estas coisas fazem sempre pena; alívio, porque, na verdade, a única solução é essa – o não prolongarmos mais uma situação que não tem já a justificação do amor, nem de uma parte nem de outra. Da minha, ao menos, fica uma estima profunda, uma amizade inalterável. Não me nega a Ophelinha outro tanto, não é verdade?

Nem a Ophelinha, nem eu, temos culpa nisto. Só o Destino terá culpa, se o Destino fosse gente, a  quem culpas se atribuíssem.

O Tempo, que envelhece as faces e os cabelos, envelhece também, mas mais depressa ainda, as afeições violentas. A maioria da gente, porque é estúpida, consegue não dar por isso, e julga que ainda ama porque contraiu o hábito de se sentir a amar. Se assim não fosse, não havia gente feliz no mundo. As criaturas superiores, porém, são privadas da possibilidade dessa ilusão, porque nem podem crer que o amor dure, nem, quando o sentem acabado, se enganam tomando por ele a estima, ou a gratidão, que ele deixou.
Estas coisas fazem sofrer, mas o sofrimento passa. Se a vida, que é tudo, passa por fim, como não hão de passar o amor e a dor, e todas as mais coisas, que não são mais que partes da vida?

Na sua carta é injusta para comigo, mas compreendo e desculpo; decerto a escreveu com irritação, talvez mesmo com mágoa, mas a maioria da gente –  homens e mulheres – escreveria, no seu caso, num tom ainda mais acerbo, e em termos ainda mais injustos. Mas a Ophelinha tem um feitio ótimo, e mesmo a sua irritação não consegue ter maldade. quando casar, se não tiver a felicidade que merece, por certo que não será sua a culpa.

Quanto a mim…

O amor passou. Mas conservo-lhe uma afeição inalterável, e não esquecerei nunca – nunca, creia -nem a sua figurinha engraçada e os seus modos de pequenina, nem a sua ternura, a usa dedicação, a sua índole amorável. Pode ser que me engane, e que estas qualidades, que lhe atribuo, fossem uma ilusão minha; mas nem creio que fossem, nem, a terem sido, seria desprimor para mim que que as atribuísse.

Não sei o que quer que lhe devolva – cartas ou que mais. Eu preferiria não lhe devolver nada, e conservar as suas cartinhas como memória viva de um passado morto, como todos os passados; como alguma coisa de comovedor numa vida, como a minha, em que o progresso nos anos é par do progresso na infelicidade e na desilusão.

Peço que não faça como a gente vulgar, que é sempre reles; que não me volte a cara quando passe por si, nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor. Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos desde a infância, que se amaram um pouco quando meninos, e, embora na vida adulta sigam outras afeições e outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a memória profunda do seu amor antigo e inútil.

Que isto de “outras afeições” e de “outros caminhos” é consigo, Ophelinha, e não comigo. O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ophelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais a obediência a Mestres que não permitem nem perdoam.

Não é necessário que compreenda isto. Basta que me conserve com carinho na sua lembrança, como eu, inalteravelmente, a conservarei na minha.

Fernando

fernando+pessoafoto2Fonte: Cartas a Ophélia, Ed. Biblioteca Azul.

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Lira do Amor Romântico ou A Eterna Repetição (por Carlos Drummond de Andrade)

limão na águaAtirei um limão n’água
e fiquei vendo na margem.
Os peixinhos responderam:
Quem tem amor tem coragem.

Atirei um limão n’água
e caiu enviesado.
Ouvi um peixe dizer:
Melhor é o beijo roubado.

Atirei um limão n’água,
como faço todo ano.
Senti que os peixes diziam:
Todo amor vive de engano.

Atirei um limão n’água,
como um vidro de perfume.
Em coro os peixes disseram:
Joga fora teu ciúme.

Atirei um limão n’água
mas perdi a direção.
Os peixes, rindo, notaram:
Quanto dói uma paixão!

Atirei um limão n’água,
ele afundou um barquinho.
Não se espantaram os peixes:
faltava-me o teu carinho.

Atirei um limão n’água,
o rio logo amargou.
Os peixinhos repetiram:
É dor de quem muito amou.

Atirei um limão n’água,
o rio ficou vermelho
e cada peixinho viu
meu coração num espelho.

Atirei um limão n’água
mas depois me arrependi.
Cada peixinho assustado
me lembra o que já sofri.

Atirei um limão n’água,
antes não tivesse feito.
Os peixinhos me acusaram
de amar com falta de jeito.

Atirei um limão n’água,
fez-se logo um burburinho.
Nenhum peixe me avisou
da pedra no meu caminho.

Atirei um limão n’água,
de tão baixo ele boiou.
Comenta o peixe mais velho:
Infeliz quem não amou.

Atirei um limão n’água,
antes atirasse a vida.
Iria viver com os peixes
a minh’alma dolorida.

Atirei um limão n’água,
pedindo à água que o arraste.
Até os peixes choraram
porque tu me abandonaste.

Atirei um limão n’água.
Foi tamanho o rebuliço
que os peixinhos protestaram:
Se é amor, deixa disso.

Atirei um limão n’água,
não fez o menor ruído.
Se os peixes nada disseram,
tu me terás esquecido?

Atirei um limão n’água,
caiu certeiro: zás-trás.
Bem me avisou um peixinho:
Fui passado pra trás.

Atirei um limão n’água,
de clara ficou escura.
Até os peixes já sabem:
você não ama: tortura.

Atirei um limão n’água
e caí n’água também,
pois os peixes me avisaram,
que lá estava meu bem.

Atirei um limão n’água,
foi levado na corrente.
Senti que os peixes diziam:
Hás de amar eternamente.

Assinatura Drummond

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Herói

Jobim

Embora não possa creditar o nome do fotógrafo que, com sensibilidade, capturou essa beleza de imagem, posso ao menos credenciar sua trajetória em meu acervo: agradeço a Renato Queiroz por ter compartilhado comigo essa imagem preciosa bem como tantas outras valiosidades. A construção e a manutenção de uma amizade verdadeira tem o mesmo quinhão de uma grande obra, é algo que, de algum modo, redime o mundo. Obrigado.

Ao contrário da era de luzes que anunciaram os iluministas, entramos na era da estupidez, da demagogia, da cafonice intelectual, da burrice como mérito e da criação de um imenso rebanho humano. Nietzsche acertou todas as suas previsões: em todos os tempos houveram intranquilos, embusteiros, desqualificados, mas em nenhuma outra época a má índole se impôs como como condição de ascensão. Com efeito, como afirma Nietzsche, o homem constante, tranquilo e permanente em seu desejo pode considerar que é dotado de mais do que uma boa índole, mas uma virtude superior que serve a toda a nossa espécie levando adiante a chama do heroísmo, das grandes obras e da afirmação de uma vida autêntica e não simulada. Um desses grandes Heróis da minha e de todas as vidas aniversaria hoje. Se vivo, Tom Jobim e seu piano (que quando juntos tornaram melhor o mundo em que você e eu vivemos) completariam hoje 87 lindos anos. Sua música ecoou suave tornando menores as misérias individuais e coletivas de nossa pobre gente tão rica de vazios. Comemoro esta data relendo a carta escrita por mim em Dezembro quando da ocasião de sua morte. Parabéns, Tomzinho.

(Minha) Carta ao Tom: https://lituraterre.com/2013/12/08/minha-carta-ao-tom/

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