O afogamento dos nordestinos e a bocarra aberta do Estado-Mãe

Há um processo de subjetivação em curso que pesa no lombo de toda criança que vem a este louco mundo. Os principais teóricos da contemporaneidade em todas as áreas das chamadas Ciências do Espírito (a Antropologia, com Claude Lévi-Strauss; a Linguística com Ferdinand Saussure; a Psicanálise com Sigmund Freud) concordam que humanizar-se é um processo que é possibilitado pelo contexto cultural que circunda o infante. Há um trabalho interior de afastamento das determinações animais (herança da espécie) e de incorporação dos valores e insígnias propostos pela Cultura, sendo portanto um processo interior de leitura e incorporação do exterior.

Eis o drama familiar que se repete na feitura de todo homem. Eis as linhas e tintas que nos costuram e nos dão forma e cor: há um desejo a ser barrado por um terceiro, como condição para que o sujeito não se aniquile: e este aniquilamento é o senão do não, o desejo dilacerante do Outro, o aprisionamento. O desejo da mãe é como a bocarra de um crocodilo imenso com desejo de obliteração. Carreia sempre estragos. Do outro lado temos um terceiro que, se tivermos sorte, põe um gravetinho na bocarra e nos livra do grande amor de nossa vida.

Tal experiência não é sem danos nem cicatrizes. Dito em termos mais claros, significa que somos traídos na nascente de nossa experiência: o grande amor de nossa vida têm um outro que dele nos afasta. Essa é a primeira violência que vivemos e que nos ensina como o mundo funciona e tal experiência é incontornável: não à toa construímos à nossa volta um mundo naturalmente violento, fruto da tentativa de elaborar o modo igualmente traumático como abandonamos nossa animalidade.

O que nos deparamos no todo-dia são cidades caóticas, incapazes de possibilitar ao indivíduo (em fase de estruturação) a incorporação intrapsíquica da Lei e da noção do dever, os responsáveis pelo “laço social” (o que temos são grupos arrasados pela dinâmica dos pequenos e grandes gestos de corrupção que vão desde o “jeitinho” cotidiano até a expressão de atitudes despóticas por parte de autoridades); e do ponto de vista interior a alienação do objeto que inaugura para o indivíduo uma assimetria entre o que este diz e o que efetivamente faz ou deseja. Tal incongruência é um fenômeno presente na raiz da experiência humana, citado inclusive em um dos textos geradores da cultura ocidental (o Novo Testamento): numa carta escrita ao povo romano o apóstolo Paulo menciona o seu “espinho cravado na carne” ao dizer: “Faço o mal que não quero e deixo de fazer o bem que quero”. Tais são os entraves da estruturação particular do indivíduo: um contexto violento em sua raiz e a violência interior de o falante não poder identificar-se, em última instancia, com o próprio discurso ou cumprir fielmente os ideais por ele traçados.

É desse modo que vamos seguindo pela vida: o outro é o diferente, merece menos do que eu. Meu (e dos meus) é o mundo. O outro é o “negro que, por sua cor é inferior a mim”  ou então outro é o “branco de olhos verdes que, por sua história, por se achar superior a mim, é um impiedoso que deve ser punido, um inseto a ser pisado”. Outro é a “mulher, inferior ao homem e que merece a panela e o fogão” ou outro é o “homem que por sua história de exploração é supostamente um agressor que deve ficar longe dos filhos diante de qualquer suspeita de violência”. Outro é o “paulista que tem preconceito com o que os nordestinos fazem, que não reconhecem que TUDO aqui no nordeste é maior e melhor do que o resto do mundo”, “outro é o nordestino que deve ser afogado por ter feito um voto diferente do meu”. Outro é a imprensa de direita ou de esquerda, pouco importa, é a de opinião diferente da minha e que por isso deve ser ignorada.

A contemporaneidade escolheu a partição dos bens e direitos para resolver esse impasse. O dilema humano é único. O preconceito e o ódio está em todo lugar, o ódio nos habita. e negá-lo é ingênuo e ineficaz. Um Estado que divide seus cidadãos em grupos  dando-lhes direitos distintos é um Estado que autoriza a guerra. O que testemunhamos em escala mundial são governos que desistem da criação de meios de regulação social e de punir, de modo isonômico e democrático, qualquer excesso ou quebra do laço social.

Um exemplo muito claro se deu com os recentes excessos cometidos na rede Twitter de uma paulista contra nordestinos (que repercuriram em outros excessos igualmente lastimáveis contra paulistas e sulistas). Duas respostas seriam possíveis ante a isso:. A primeira é reafirmar que somos todos iguais em direitos e deveres e punir o excesso como uma agressão à pessoa humana, reconhecendo que existem meios socialmente aceitos de elaboração do ódio pessoal não devendo o mesmo ser expresso em investidas contra qualquer grupo ou indivíduo. O segundo modo, que é o atualmente mais aceito pelos governos e instâncias governamentais, é o da aposta de que se pode capturar a diferença e se criar direitos para mais um grupo específico. Não tardará para se criarem o Estatuto do Nordestino (ou do Paulista) oficializando uma linha imaginária traçada no centro do país a diferenciar cidadãos (a mesma que a legislação impõe entre ditos negros e ditos brancos ou entra homens e mulheres ou entre gays e não gays) distinção entre os que estão sob o manto de uma nova lei e reconhecendo que o ódio não é condição humana a ser elaborada (e pela qual mantemos estreita relação de responsabilidade quanto a qualquer excesso), mas efeito de uma violencia anteriormente cometia e justificável se pensarmos em termos de reparação.

Salve-se quem puder. Fujam para as montanhas. O Jacaré abriu de novo a sua boca.

OBS – Sobre o tema em questão, destaco a brilhante participação do filósofo Raphael Douglas, meu amigo, em um programa de TV destinado ao tema que pode ser assistido aqui: http://www.youtube.com/watch?v=zLXlKCbuIbo
O blog de Raphael pode ser prazerosamente acessado aqui: http://heideggerianices.blogspot.com/

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Sobre Pedro Gabriel

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10 respostas para O afogamento dos nordestinos e a bocarra aberta do Estado-Mãe

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  3. No brasil mais do questões culturais sempre existiu uma disputa de classes e todo resto é usado para justificar, para se afirmar em algum lugar. Parece que o que humaniza também separa. Hoje em dia a política é realçar a diferença para seprar o que poderia ser um brasileiro, essa identidade que ainda não conheci.

    • Pedro Gabriel disse:

      Prezado Poeta, você capturou o cerne do meu argumento. Era isso mesmo o que eu desejava expressar. A política hoje é o juiz em um ringue de interesses de minorias. Entretanto considero que isso não seria próprio especificamente do Brasil, mas uma infeliz tendência geral. Falar baixo e pisar leve, já nos alertava Drummond há pelo menos duas décadas. Obrigado por sua visita. Este Blog costuma tratar menos de política que de beleza. Espero poder vê-lo mais vezes por aqui, será um prazer.

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  5. Lavoie disse:

    Bom, li meio confusamente da passage da estruturaçao subjetiva ao fim do texto, o recurso a metafora da castraçao e a origem da lei Maria da Penha (que ficou implicita e oculta no texto).
    Tonalidade inquieta do texto.

    Nao ha igualdade humana, nao ha. Ha diferenças que permeadas por um discurso do poder engendram posicionamentos identitarios societais qua nao necessariamente abarrotam o sujeito. Se inflitram, perseguem ou largam, abandonam, mas a lei é antes de tudo necessidade humana, a gente transgride, trafica, transveste, porque de alguma forma ela esta la. Logica perversa o discurso brasileiro, sim… mas nao se reduz a ele, como o sujeito nao se reduz a familia e essa a sociedade.
    So a ditadura, o comunismo sao exemplos dessas derivas da aniilaçao da individualidade.

    Mas a lei que se aplicou recentemente (e nao so) no brasil leva em conta uma realidade camuflada muitas vezes por esse discurso semantico da igualdade. O universalismo se lê ou como um respeito as diferenças ou como um aglomeraçao de individuos na mesma carga identitaria.

    o que dizer entao dos direitos das crianças que entraram em vigor em 1989? Ela tende a limitar a o ilimitado do outro parental.

    Existe uma Historia das mulheres, uma violencia contra a mulher, as excisoes africanas como ritos de passagem, os apedrejamentos na india, sem citar outros.

    Nao é a relaçao edipiana que esta em jogo, caro amigo, isso esta muito “en-deçà” como dizem os franceses.

    Salutaçoes freudianas

    • Pedro Gabriel disse:

      Queridíssima Mayra, obrigado pelo seu comentário que prestigia e engrandece minha postagem. Creio que a assimetria que existe entre as pessoas (ou a simetria que inexiste, como preferir) não significa a abolição do ideal iluminista de igualdade de direitos. Entenda que os tais filósofos não falavam de igualdade de indole, conduta, caracteristicas corporais… mas de oportunidades e de direitos. O movimento feminista iniciou-se pela reivindicação dessa igualdade, tendo conseguido agora reivindica a diferença e começa a virar o jogo. Não nego a historia da violência contra as mulheres, mas aqui no Brasil mulheres em carcere privado ou impedida de trabalhar são (felizmente) uma excessão. Eu trabalho no Juizado da Mulher e sou testemunha que a Lei que foi criada para as Marias da Penha serve, em 95% dos casos que chegam, para apurar rame rame de fim de relação em situação onde a mulher não se encontra subjugada, mas em pé de igualdade. Espero que compreenda esse ponto de que mulher não faz laço, categoria, não existem As mulheres.

  6. Diego Spencer disse:

    Artigo muito interessante e instigante! Me fez refletir… divagar em pensamentos. Fui longe, mas retornei à minha consciência para comentar acerca do texto.
    Então, lá vai: qual o motivo cabal de haver (quase) infinitas especificações das minorias dentre o todo – a nação?
    Seria social? Ideológico? Político-eleitoreiro, apenas? Ou, simplesmente, estamos diante de uma tendência Humana – a manifestação da sua “animalidade”?
    Pensei que, talvez, seja o Ser Humano, de fato, um ser social, como queria Aristóteles, e, por isso, busque ele o agrupamento com os seus “iguais”, mais do que isso, um sub-agrupamento dentre aqeules, no qual se encontram somente os que lhe são mais afetos. Estes seriam os integrantes da minoria da qual faz parte.
    É, porque hoje todos fazemos parte de ao menos uma das comentadas minorias, seja ela racial, social, política ou estética. Existe uma minoria (ou seria maioria?) estética, que são aqueles que não correspondem àquela imagem ideal pregada cotidianamente pela mídia… ao meu ver.

    Enfim, a título de introdução aos meus pensamentos suscitados pelo deleite desta inquietante leitura, dou-me por satisfeito com o exposto e espero ter contribuído de algum modo com a construção esboçada pelo Autor, pois esse é um tema para uma semanda inteira de conversa..

    • Pedro Gabriel disse:

      Caro Diego. Agradeço a sua valiosa visita e o seu prestigioso comentário que, ao contrário do que você pensou, concluiu e acrescentou elementos à discussão. Sobre os pontos que você levanta eu concordo que os grupos humanos, de dentes trincados, com a busca de direitos específicos expressam toda a agressividade humana que encontra nas vielas assimétricas dessa cidade de traições, um modo de odiar dentro da lei. O perigo é o da dissolução e lembremos Freud, com sua postura estoica diante da vida, nos recordando que cabe às instituições (o Estado sobretudo) instituir meios de sublimar essa violência inextinguível. De fato é de nossa condição humana o odiar, mas isso não é incontornável e penso que os estatutos de minoria estão mais próximos do acirramento das disputas do que de uma solução de compromisso. Ainda sobre o seu brilhante comentário, você é muito feliz quando diz que todos integramos alguma minoria composta pela inadequação do que somos com o que de nós esperam do ponto de vista estético. Seu comentário coloca em questão o problema aristotélico da insuficiência das categorias. Nenhum objeto do mundo (sobretudo seres humanos) podem ser mapeados em grupos, as categorias não dizem o ser (é o resultado do processo falido de Aristóteles de classificar o mundo) e no fim o que sobra é a diferença radical, o indivíduo solitário lançado ao mundo sem par nesta vida. O poeta moçambicano Mia Couto reproduz belamente uma resposta dada à polícia quando perguntado sobre sua raça: “Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual. Cada homem é uma raça”.

      • Diego Spencer disse:

        Maravilha estar contribuindo para um debate tão rico e necessário, pois, afinal, estamos ou não cada vez mais tendentes a individualizar aglutinando, não é mesmo?
        Nós, humanos, somos mesmo um tanto “odiadores”, seja do “inimigo”, seja do “bandido”, seja do “rival” no trabalho… o Estado e toda a sua democracia tem de atentar para o fato de que isso é real e natural, mas que precisa ser impedido, combatido, a fim de evitar chegarmos ao momento em que o ordenamento jurídico que o fundamenta será um total plexo de normas desconexas e ilógicas, descabidas.
        Temos que ampliar esse debate, expandir os horizontes… mostrar a outras pessoas desta sociedade a incoerência que é praticada todos os dias pelos nossos legisladores como nosso respaldo e por nós mesmos, por nossa consciência irracional!

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