AmorOdiar o Próximo…

Publicado em Amalgama.blog.br em 25/11/2010

A Cura da Loucura, por Hieronymus Bosch.

A Cura da Loucura, por Hieronymus Bosch. Óleo sobre tela, 48 x 35 cm; Museo del Prado, Madrid

“Eu não lhe dei, Adão, nem um lugar predeterminado, nem quaisquer prerrogativas, a fim de que você possa tomá-los e possuí-los através de sua própria decisão e de sua própria escolha.” É assim que Deus fala na Oração Sobre a Dignidade do Homem, escrita por Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494). Tais palavras carregam em seu bojo, com uma espantosa clareza, a expectativa o que pulsava no coração do Humanismo renascentista: a liberdade do Homem, que pela sua inteligência e livre-arbítrio torna-se livre para construir seu próprio projeto de vida. Estava inaugurado o movimento humanista, derivado de humanitas, que no tempo de Cícero (106-43 a.C.) designava a educação do homem considerado na sua condição propriamente humana (ao menos os humanistas que enxergavam humanos em todos os momentos da história assim nos fizeram acreditar).

Poucas empreitadas humanas foram tão ingênuas. Autonomia e liberdade, ilusões então criadas recentemente, foram celebradas como conquistas e se constituíram na base para a criação do ideal moderno de Estado, direitos, modelos de governo, tribunais e demais alfaias que nos dão a ilusão de estarmos bem longe das clavas neandertais. Erasmo de Rotterdam tentou nos alertar para o ridículo dessas empreitadas fazendo a apologia de sua stultia, mas o Elogio da Loucura não foi suficiente para deter os que olhavam desdenhosamente para o medievo, tal como Petrarca com sua idéia de que a Idade passada havia sido de trevas: tenebrae era.

O Homem Vitruviano: desenho de Leonardo da Vinci datado de 1490 encontrado em um de seus diários contendo o chamado "Cânone das Proporções", denotando o que seria o homem de formas ideais.

Esta zombaria dizia respeito a um suposto obscurecimento intelectual que a humanidade teria vivido entre os séculos V e XV (na baixa e alta idade média), justamente o período onde a humanidade conheceu a música barroca, a arquitetura gótica, o canto gregoriano, a criação da maioria dos instrumentos que hoje compõem a câmara, dentre outras tantas produções culturais. O que dizer então sobre o efeito das tais luzes para a vida em que mesquinha e amendrotadamente vivemos hoje? No medievo o mundo funcionava de acordo com regras claras e muito definidas: ninguém era ferido sem estar segurando uma espada. Havia lógica e havia laço social.

Acreditar na liberdade e na justiça e viver como se estas fossem disposições humanamente possíveis e acessíveis a qualquer indivíduo (como quiseram os humanistas, renascentistas e iluministas) não nos fez tanto mal: gerou um Estado hipócrita, superficial e corrupto, mas em momento nenhum ameaçou a nossa raça de extinção. O preconceito moralista e o sofrimento não eram sequer novidade: eram velhos conhecidos que retornavam com força adicional e que, como todo efeito anterior de uma tentativa de intervenção no real pelo simbólico, nos convidava a recomeçar. Nisso se irmanaram pré-história  tribal, idade clássica, medievo (falso touro espanhol domado, como disse Drummond de outra desilusão).

O tempo atual, ao contrário do passado,  é extremamente delicado. É preciso falar baixo e pisar leve. De  luzes apagadas amargamos a primeira e verdadeira Idade das Trevas (Profundas Trevas, aliás). Vivemos hoje à beira da dissolução, no chamado “Deserto do Real” que se instaura justamente no fim da lógica de convivência e do acordo social válido para todos os integrantes que participam do jogo (condição da antiga democracia, hoje em estado de falência). A dissolução nos bafeja de perto e de longe e em breve a humanidade realizará o seu antigo desejo de “não-mais-ser”. O ódio que é exercido a céu aberto vem em nome do bem (que ganhou o nome de reparação) e do amor ao próximo (quem em uma dialética estranha ao ser chamado de próximo é amputado do meu grupo e dos direitos que são meus: é próximo porque não é do meu grupo, é vizinho, é digno de compaixão).

O próximo é o diferente, é o outro e, como tal, é meramente suportado e tolerado até que o pano caia. Se sou negro o branco é meu inimigo e quero acordos sociais para mim, para os meus. O que importa se o branco punido não tem culpa individual ou se o negro beneficiado sequer é negro? Do que importa a obra de Gilberto Freyre que denuncia nossa mesticidade negada? De que improta se o resto do mundo que nos olha só vê mestiços?  De que importa que as raças não existam na natureza e que são invenções políticas para beneficiar os líderes das raças? De que importa que a escravidão tenha sido um fato econômico e geográfico e não étnico (eram africanos os escravizados, não negros) e que tenham havido negros donos de escravos? Pra quê refletir com rigor se a ideologia se mostra mais concorde com a irracionalidade e o ódio que desde sempre existe no homem  e que a contemporaneidade decidiu exercer com refinamento? O mesmo raciocínio serve para o movimento feminista que conseguiu (supostamente falando em nome das mulheres as quais efetivamente não representam) desequilibrar a isonomia de direitos existente há um par de séculos com a Lei Maria da Penha. O mesmo serve para as vindouras leis baseadas em etnias, condição sexual e sabe-se mais o que vai ser usado para acrescentar direitos. Diante desse quadro os governantes não são mais chefes de um Estado e o conceito mesmo de cidadania se pulveriza porque não há mais cidadãos e sim grupos. Conforme Marcel Gauchet o papel dos estadistas hoje é o de administrar esse pluralismo de interesses dos grupos que querem a Coisa pra si.

O que nos constitui vem de fora e vem de cima. O dilema humano não se resolve com acordos ou projetos de sociedade. O velho relógio da vida que em nós lateja clama pelo seu desarme e a teoria das pulsões do velho Freud ainda nos ensina, com muita atualidade, que a vida em nós quer morrer. Deixar que a chama se extinga a seu tempo suportando os ventos que a acossam justamente quando ela é mais bruxeleante parece ser mais digno do que inviabilizar a sociedade pela navalha da divisão. Abandonado às massas barulhentas o homem ignora sua solidão de indivíduo e nega-se a partilhar com seus irmãos de condição (“Mon semblable, mon frère.”, como disse Charles Baudelaire) o triste peso da carne e nossa vulnerabilidade ante o não-simbolizável.

Talvez Bernardo Soares esteja certo. Talvez a vida seja mesmo uma hospedaria desconfortável onde somos obrigados a nos demorar até que chegue, implacável e sem horário marcado, a diligência do abismo. Podemos, entretanto, encontrar poesia também aí, cantarolar e nos divertirmos um pouco enquanto esperamos. Sobretudo é possível aguardar de casa limpa, mesa posta e com cada coisa em seu lugar.

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Sobre Pedro Gabriel

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6 respostas para AmorOdiar o Próximo…

  1. wilza disse:

    Concordo com algumas colocações, mas dizer que “O mesmo raciocínio serve para as mulheres que conseguiram desequilibrar a isonomia de direitos existente há um par de séculos com a Lei Maria da Penha.”… Se não havia isonomia como ela pôde ser deseqilibrada? E a Lei Maria da Penha não existe há um par de séculos… o que você quis dizer realmente? 🙂

    • Pedro Gabriel disse:

      Oi Wil, a Lei Maria da Penha quebra o equilíbrio democrático porque desequilibra a universalidade que é pressuposto para que haja a cidadania. Por exemplo. Caso a mulher seja agredida ela pode solicitar a restrição ou suspensão das visitas do agressor aos filhos, o afastamento do lar, dentre outras possibilidades. A contrapartida não é possível. Um homem sendo agredido não pode solicitar suspensão de visitas aos filhos ou afastamento do lar. Aqui a categoria da cidadania não existe, em seu lugar há a categoria “gênero” acrescentando ou removendo direitos. É nesse sentido que a Lei Maria da Penha procedeu com a dissolução da democracia. E esse é apenas o exemplo mais elementar. Pretendo publicar um artigo chamado “A Lei Maria da Penha e a Dissolução da Democracia” onde abordo outros, como o exemplo em que um homem agredido fisicamente (por outro homem inclusive) em alguns contextos específicos não tem como punir seu algoz com algo mais do que a assinatura de um TCO. Uma mulher insultada em ambiente domestico e familiar, pela Lei Maria da Penha, pode ter seu algoz preso dependendo da situação. Se pensarmos em termos de cidadania, será absurdo que um ser humano ofendido verbalmente tenha mais meios de obter punição do que um outro ser humano que levou uma surra. Mas a lei pensa em privilégios dados em função de gênero. Isso ao meu ver é o princípio de uma guerra, uma guerra anti-democrática. Existem outras leis e estatutos na nossa legislação para as partes hiposuficientes (como o ECA e o Estatuto do Idoso), mas eles funcionam dentro da lógica da universalidade porque atendem a toda a população: todos fomos crianças e todos seremos idosos, de modo que todos nos valemos ou nos valeremos desses estatutos. A Lei Maria da Penha promove uma segregação de direitos com base anatômica.
      O que existe a 2 séculos é a democracia e o princípio da isonomia. Os direitos nunca foram pensados em função de cor da pele ou gênero, há 200 anos foram direitos da pessoa humana: sem distinção de raça, credo, cor ou gênero (como diz o primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos). Se eles não eram na prática exequíveis, criar mecanismos para sua execução seria mais razoável, ao meu ver, do que oficializar o desequilíbrio promovendo mais injustiça e um Estado ingovernável.
      Ah sim, e por fim MUITO obrigado pelo seu comentário. O Blog foi criado EXATAMENTE pra isso, pra interlocução. Muitas carinhas felizes. 🙂 🙂 🙂

      • Wilza disse:

        Entendo sua colocação e no maravilhoso mundo de Bob seria perfeito, mas estamos falando de uma construção histórica e cultural de violência doméstica contra a mulher. Os números no Brasil eram comparados aos do Oriente Médio (lugar que considero neandertal quando se trata de respeito à mulher). O princípio da isonomia é muito bonitinho para quem não está no pólo mais fraco da estória. Acredito na máxima: “Igualdade não é tratar todo mundo da mesma forma, mas tratar os desiguais na medida de suas desigualdades.” No Brasil ocorre que o Estado não garante segurança, educação e oportunidades econômicas para todos, então daí nascem (e precisam mesmo nascer) problemáticas sobre o princípio da isonomia (cotas raciais, garantias de direitos baseadas em questões de gênero e afins). Não é o ideal, mas se analisarmos de forma contextual levando em consideração fatores históricos e sociológicos, percebemos que se o ideal não é feito, nasce a necessidade de atacar com paliativos. Não queria viver em um país de paliativos que nunca resolve efetivamente um problema porque nada é feito com investimento a longo prazo. Enquanto não se investir pesado em educação integral no país é mera ilusão falar em igualdade, já que daí derivam milhares de deficiências, sociais, econômicas, intelectuais, emocionais, jurídicas, legislativas… simplesmente é impossível. Especificamente sobre a Lei Maria da Pena, ela só aconteceu no Brasil porque pelo terceiro ano consecutivo a ONU tinha enviado um documento oficial pedindo providências por causa dos números alarmantes de violência doméstica contra a mulher. Com isso, estava se omitindo quanto a proteger os direitos humanos.
        Se você observar, na maior parte dos BOs o agressor afirma: “Se você não for minha, não será de mais ninguém.” (entre outras frases do tipo…) Não tem jeito. Ainda somos vistas como propriedade, um objeto que não devia ter vontade própria e estar sempre dependente da vontade do homem. Já começa aí a situação de desigualdade, sem falar na dependência financeira (já que é comprovado que ganhamos menos que os homens, mesmo exercendo as mesmas funções.) E a desigualdade física? Nem se fala! Talvez seja difícil para você compreender porque acredito que tenha outra visão e outra forma de tratar uma mulher, mas nas classes mais baixas a estória muda radicalmente. Se você fosse mulher iria compreender melhor… só nascendo com uma xoxota para saber o que é ser mulher em um mundo de homens. Acho que só a começar pela forma como somos criadas já é uma violência. Meus irmãos nunca faziam trabalho doméstico e tinham direito de sair a hora que quisessem com quem quisessem e trepar com quem bem entendessem. Já nós, mulheres, já começamos presas em casa (lavando prato e cozinhando, sem escolhas), temos nossos passos vigiados o tempo todo e nossa virgindade mais que um direito absolutamente nosso, diz respeito a todos menos a nós mesmas. Até hoje um tabu. Um homem solteirão é um garanhão ou um viado feliz, uma mulher solteirona é uma coitada. Essa estória toda de mulher “muderna”, descolada, caçadora e independente é exceção. É coisa de revista Marie Claire. Acho que se eu fosse negra e pobre também iria compreender melhor muitas coisas porque às vezes é difícil compreendê-las a fundo sem estar efetivamente no lugar do outro.

      • Pedro Gabriel disse:

        Oi Wil. Obrigado por mais essa colocação.

        Entenda que eu não estou desmerecendo a necessidade de políticas em prol de uma diminuição da violência contra a mulher (e conta qualquer outra parte mais fraca em um domicílio ou em outro âmbito qualquer da vida). Os números de que você fala e o nosso histórico de machismo atestam para essa lamentável realidade onde pessoas são agredidas por quem mais as deveriam amar. O meu argumento é o de que a Lei Maria da Penha precisa de uma profunda revisão e que ela não se encontra (nem de longe) no melhor formato que poderia assumir, sobretudo no formato mais democrático. Então desde já entenda que não proponho um fim de politicas contra violência, mas que elas sejam levadas a cabo de modo coerente.

        A máxima a que você se refere (de tratar desigualmente os desiguais) é oriunda de um movimento que considera a democracia uma invenção burguesa e que, como qualquer outro bem da burguesia deve ser desmontada e espoliada. Não funciona na prática (do tratamento dos diferentes) porque a diferença que carregamos não pode ser capturada. Se uma pessoa é mulher E negra E homossexual por exemplo, ela será tratada como o quê? Como qual dessas categorias? Como as três? Ela terá mais direitos que uma mulher não negra e não homossexual? Ou como um homem branco hetero? E se compararmos uma mulher negra hetero e um homem negro e homossexual? Percebe como não temos como atribuir uma constante X de preconceito a ser reparado num indivíduo. E sobretudo não é possível tratar um indivíduo pelos erros de um grupo que não é o seu.

        Em relação ao estatudo de igualdade racial a coisa se torna ainda mais absurda porque no Brasil não há negros. Todos somos pardos. Se você alinhar um “negro” desses de rastafári e que integra os movimentos com um Moçambicano ou Angolano eles vão diferir. Eu tenho uma avó Negra decendente de escrava. O fato de não ser possível definir o que é um negro devido a nossa intensa mesticidade atestada na obra de Gilberto Freyre e demais estudiosos de peso que são hoje sumariamente negados são prova disso. Um outro detalhe é que a escravidão no Brasil não foi um fenômeno racial, não eram os negros que eram escravizados, mas africanos. Haviam inclusive negros donos de escravos que frequentavam a Côrte carioca, negros capitães do mato que recapturavam escravos perdidos. Então as cotas beneficiam pessoas de pele preta descendentes de negros escravos ou decendentes de donos de escravos ou capitães do mato? Como diferir?

        Cotas e leis para minorias são uma proposta impensada, injusta e anti-democrática. E quero que você entenda que eu não sofri e não sofro menos que você. Nasci no interior, no Sertão, onde as minhas aspirações à culinária, à leitura e às artes eram interpretadas como homossexualismo. Levei surras de deixar marcas por isso. Eu era obrigado a desempenhar um papel com o qual nunca me identifiquei e ser homem não me livrou dessa violência. Ainda hoje olham para mim supondo machismo e violência pelo simples fato de eu ser homem. E essa violência que eu sofro é aumentada com as tais políticas afirmativas.

        Beijo imenso e obrigado pela parceria nessa atividade sagrada do debate de idéias.

        Pedro

  2. Flavia Gomes Souza disse:

    nossa que legal nunca tinha lido uma escrita desse jeito gostei muito parabens para quem escreveu ta bom desejo a voce muita boa sorte

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