O puro nada e a calçada onde o psicanalista roda sua bolsinha

Tenho acompanhado em semi-silêncio a discussão sobre a sucessão eleitoral. Embora tenha a minha opinião a respeito da opção nenos trágica dentre os finalistas da corrida, chamou-me a atenção o modo como alguns colegas (amigos da Psicanálise) chegaram a falar em nome da categoria propondo uma espécie de “voto mais adequado aos psicanalistas” entendendo adequação como o que virtualmente viria a viabilizar o exercício da Psicanálise. Alguns colegas da Psicologia chegaram a falar num “voto da saúde mental” (fazendo referência ao que viabilizaria o melhor projeto para tal área). Algumas discussões se tornaram animosas e também essas me fizeram pensar que a dimensão Ética de nosso fazer seja mais da ordem de um distanciamento desse rame-rame e que seria muito mais coerernte com o lugar de escândalo e horror e que é a calçada onde o Psicanalista roda sua bolsinha (metáfora de Lacan).

Cá no meu canto, no cubo de trevas onde saborosamente vivo, fiquei me perguntando se o horroroso do nosso lugar não estaria justamente no que ele exige de santidade (enquanto exercício ascético). Digo isso lembrando algo que Lacan diz em algum lugar de sua obra que o analista é afastado do mundo qual um Santo que, tal como os santos católicos, recusa todos os bens desse mundo para sustentar o puro nada do seu fazer (como os famosos Padres do Deserto). Evidentemente não somos místicos, religiosos, santos no sentido nobre da palavra mas penso que nosso ofício nos coloca de algum modo nesse estado de suspender-se no oco do mundo sendo o pagamento o que (felizmente) nos impede a caridade.

Eis a minha questão: enquanto santos descaridosos (“il décharite”, diz Lacan), mais déchet (dejeto) do que charité (caridade), como poderemos entrar no tal debate democrático sem ser a partir do imaginário da crença em uma proposta de organização do mundo? Se o analista não deve querer o bem, como podemos nos dar ao conforto de acreditar em qualquer empreitada de ordenamento do que é inconciliável em suas bases? Nossa discussão do tema não deveria ser justamente uma análise do entorpecimento das massas em nome de causa A ou B e sobretudo os limites do governável (a ser feito mais propiciamente, talvez, num período não eleitoral)? Eu particularmente me sinto ignorante (e isso é coisa minha) quanto a questões histórico-políticas, não conheço os políticos por rosto, nome ou partido, mas penso que se já temos tanta gente dividindo o mundo entre “machistas e feministas”, ou “operários e patrões” ou “oprimidos e opressores” não teríamos nós algo de distinto a acrescentar à questão ao invés de simplesmente escolher um lado, endossando assim essas categorias universais? Talvez haja uma intervenção no social a ser feita no sentido de instaurar um particular. Seria essa a alternativa política que pode promover a Psicanálise?

São questões que me inquietam e que compartilho sem nenhum interesse de repreender colegas eventual e devotamente aderiram às discussões políticas (quem sou eu?) embora eu particularmente prefira sequer votar. Do meu cantinho por razões que são muito minhas repito o que Freud disse numa carta a Max Eastman respondendo a sua questão: “Politicamente, eu não sou nada.”

(Imagem: “Mentira” por René Magritte)

Anúncios

Sobre Pedro Gabriel

www.lituraterre.com
Esse post foi publicado em (... LITURAS PRÓPRIAS ...), Psicanálise e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s