Em breve nota celebro a notícia da primeira edição brasileira de Stephen Hero, do irlandês James Joyce, que na tradução de José Roberto O’Shea, para a cuidadosa Ed. Hedra, transformou-se em Stephen Herói. Vem muito bem acompanhada da já comentada terceira tradução em nosso vernáculo do Ullysses ajudando a reparar, ao menos em parte, nosso solene desconhecimento dos autores clássicos. Stephen Hero é, a exemplo de A Portrait of The Artist as a Young Man, um romance autobiográfico. O ano de 1904 foi decisivo para James Joyce: publica O Santo Ofício (o primeiro de sua vida adulta), conhece Nora Barnacle com quem vive o fatídico 16 de junho que se tornaria posteriormente o Ulysses. Neste mesmo ano produz o material autobiográfico do qual aproveita em parte na publicação de A Portrait…, o restante reaparece em Stephen Hero na qualidade de publicação póstuma. O ano de 1904 foi uma caldeira de eventos que sustentaram o sinthome Joyceano. Há sintoma não por existir corpo, mas por existir significante. Sintoma e e corpo são efeitos da fala, do significante em sua sideração. O sintoma existe porque falamos e falar não se presta à comunicação, mas ao mal entendido: que é quem funda o recalcado, um impossível de ser dito, algo que não aparece no espelho, mas escolhe o corpo como vítima preferencial. Joyce encontrou, por meio da literatura, a via maestra do Sinthoma: fazendo frente à invasão inglesa na irlanda que suprimiu o gaélico, Joyce quebra o inglês, vernáculo invasor, e o devolve aos pedaços em suas duas obras máximas. Produz uma literatura que tem no equívoco e nos mal-entendidos o seu maior quinhão. “Nunca se fez literatura assim, antes” (dirá Lacan em um seminário, proferido por um ano inteiro, dedicado exclusivamente ao autor). Joyce joga letter (letra) e litter (lixo). A letra é um dejeto que se deixa cair, é litura, rasura, esboço: seu essencial pulula não da casca, mas das entrelinhas. Literatura aparece dentro do que carece de ser quebrado do suporte material, da letra, para que apareça o significante: lituraterre (sintetizará Lacan em um neologismo que batiza esse blog). De Joyce ecoa o Joy, o gozo (jouissance). Ler Joyce é uma gozação. (LACAN,2007, o. 163). Aí está o sintoma que, com alegria, poderemos melhor perscrutar com a publicação de sua segunda novela autobiográfica que remonta ao mesmo 1904 que é celebrado anualmente em todo o mundo.
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