Tristeza, riso, poesia

Não há vida feliz. Ao contrário do que as pessoas comuns vulgarmente repetem (que em todos os momentos da historia sempre se buscou a felicidade como objetivo maior de qualquer vida) a felicidade é uma construção recente: é moderna, filha da revolução industrial que colocou nossa alma em uma esteira fordista transfor-mando-nos em mais um produto à disposição da voracidade do capitalismo. Essa invenção em nada apazigou nossa demasiado humana condição, ao contrário, esse conceito maldito em nome do qual se cometem as maiores crueldades tem nos transformado aos poucos, pela via da negação da morte e seus embaixadores, numa massa disforme e acéfala que se esvai pelo ralo do consumismo e da pharmacofilia (como movimentos de fuga para a febre de viver). “Feliz é o boi, comendo seu capim” diz decisivamente o fragmento heraclitiano. A felicidade que o tempo presente com suas engenhocas repetidamente anuncia e nega é algo animalesco, é um estatuto final impossível aos que falam. Após a nossa saída da horda primeva, cobertos que estamos com o manto da linguagem costurado com fios totemicos, nada mais nos resta do que portar meia verdade e uma vida marcada pela alternância não encontrando jamais tal estatuto final exceto no amor (por um brevíssimo e fugaz momento), na loucura e na morte (três eventos, afinal, não tão distintos). Uma arqueologia crítica do conceito é desnecessária para demonstrar a inexistência da felicidade. Para isso bastaria um exame cuidadoso das evidências que a cotidianidade nos presta. A vida mesma, em sua dimensão de pura possibilidade, nos convencerá de que a felicidade não poderá ser mais do que algo meramente circunstancial. De uma vida que acontece embaixo de bombas e outros desacertos nucleares não pode se dizer feliz. Haverá sempre o pneu do furado, as imprevidências de um corpo que adoece, a presença pesarosa do outro, afrontas à ideia de uma vida feliz. A vida é uma sequência imprevisível de eventos, dirá Drummond, sendo alguns deles felizes. A felicidade, se possível, traria consigo a definitiva morte da literatura, da poesia, do cinema e de todas as demais construções humanas fruto da dor de existir. Abaixo trago um vibrante poema da lavra de Bandeira composto com este mote. Certo da inviabilidade de uma vida feliz, o poeta procura artifícios para se contornar o abismo. Atravessada a escuridão, nosso herói nos ensina o caminho. A trajetória libertadora da dor e a apreciação dos mitos, fábulas e demais epifanias nos asseguram: não é necessário ser feliz, é necessário saber atravessar uma e todas as noites, de pé e com a dignidade. Amor fati.

* Manuel Bandeira narrado por Juca de Oliveira

“Quando perderes a gosto humilde da tristeza,
Quando nas horas melancólicas do dia,
Não ouvires mais os lábios da sombra
Murmurarem ao teu ouvido
As palavras de voluptuosa beleza
Ou de casta sabedoria;

Quando a tua tristeza não for mais que amargura,
Quando perderes todo estímulo e toda crença,
- A fé no bem e na virtude,
A confiança nos teus amigos e na tua amante,
Quando o próprio dia se te mudar em noite escura
De desconsolação e malquerença;

Quando, na agonia de tudo o que passa
Ante os olhos imóveis do infinito,
Na dor de ver murcharem as rosas,
E como as rosas tudo o que é belo e frágil,
Não sentires em teu ânimo aflito
Crescer a ânsia de vida como uma divina graça:

Quando tiveres inveja, quando o ciúme
Cristar os últimos lírios de tua alma desvirginada;
Quando em teus olhos áridos
Estancarem-se as fontes das suaves lágrimas
Em que se amorteceu o pecaminoso lume
De tua inquieta mocidade:

Então sorri pela última vez, tristemente,
A tudo o que outrora
Amaste. Sorri tristemente…
Sorri mansamente…em um sorriso pálido…pálido
Como o beijo religioso que puseste
Na fronte morta de tua mãe…Sobre a tua fronte morta…”

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Sobre Pedro Gabriel

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4 respostas para Tristeza, riso, poesia

  1. Eu acredito que a felicidade pode existir, apenas é que a vida não é somente ela.

  2. Cinthia disse:

    Ainda que seja por alguns instantes….ainda acredito que a felicidade possa existir…mesmo que a vida seja uma só…

    • Pedro Gabriel disse:

      Cinthia, grato pelas visitas constantes e os comentários sempre carinhosos. O poema nos sugere que ser triste e, mais que isso, saber-se triste supõe humildade e a grandeza de espírito que nasce da coragem de olhar no espelho. Evidentemente não podemos cair no erro de reduzir a isso a vida. Acho que é o que você me diz com seu comentário. Obrigado por ele.

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