A Pedra e o Viúvo

Drummond entra na poesia com seu brilhante Alguma Poesia cuja publicação, datada de 1930, foi custeada com economias próprias. Nele ouve-se retumbante seu magnífico No meio do caminho, de longe, o poema dono da mais extensa fortuna crítica de nossa literatura. Mesmo estreante, o Gauche Itabirano não era propriamente um desconhecido ao quebrar seu cofre-porquinho e lançar-se às editoras. Quatro anos antes de sair em livro, quando seu autor tinha apenas 23 de idade, o poema Cantiga de Viúvo (que em 30 saíra também no mesmo livro), teve o privilégio máximo de ser musicado por Villa-Lobos que embora não conhecesse pessoalmente o autor dos versos, dele tomou conhecimento (como é legítimo supor) pelos meios que o poeta usava para divulgar porções do seu magnífico trabalho (jornais e publicações literárias, fartas e qualificadas na época de ouro mineira). Em seu percurso como periodista, Carlos chegou a ser coeditor de uma dessas publicações chamada A Revista: ventre que pariu exíguos três números no ano de 1925, o que explica em parte a popularidade que o levou ao conhecimento do Villa. Ainda navegando ao avesso no oceano do tempo e ancorando no cais de saída de nosso queridíssimo Drummond, é também marco de importância a publicação No Meio do Caminho na Revista de Antropofagia (em 1928, se não falha a memória de minhas fontes), onde, no dizer de Alcântara Machado, seu editor, causou a “agitação literária” que lhe convocou a primeira linha de leitores. Em tal poema, Drummond, com seu verso livre, proclama-se moderno (antes de, cansado, proclamar-se eterno) e lança as bases formais de sua poesia. Há no entanto outra sutil proclamação que costuma passar desapercebida pela maioria dos cítricos literários. Imbuídos de furor historiandis, costumam ignorar que é dessa época, a dos primeiros passos do autor ao assumir-se publicamente poeta, antes mesmo da maturidade literária adquirida (para alguns) em Sentimento do Mundo ou (para outros) em Boitempo, que encontramos esta jóia tornada música por nosso maior compositor. Em No Meio do Caminho e Cantiga de Viúvo encontramos as duas colunas de sua matéria literária: modelos de forma e conteúdo amalgamados na proclamação de um estilo tornado público em Alguma Poesia. No primeiro é lugar comum que encontramos o acima já dito: sua adesão ao modernismo ao assumir o verso livre como sua forma primária. Entretanto, no pequeno, forte e cruel Cantiga de Viúvo há muito mais do que uma metáfora para o último suspiro de um amor que findou. Nesse curto e singelo verso já está plantada, penso eu, a semente que no futuro germinaria no grande livro sobre os desencontros do Amor: Claro Enigma. Entendemos que há aí, para além do padrão coloquial que marca a entrada de Drummond na poesia (do qual No Meio do Caminho é seu grande emblema e bandeira), uma célula da sua forma definitiva em termos de temática abordada e do humor transido com que trata as grandes e essenciais questões de nossa existência. Cantiga é um poema inesgotável, há nele a cifra do que seria a trajetória de seus mais de trinta livros. Encontramos, já de saída, a denúncia do fundo falso do baú da vida, o nada em que tudo afinal resulta. Seu luto não é por uma mulher de carne, tampouco representa uma negação do amor (a vida prossegue cheia de suas evidências, dirá mais tarde o poeta). O argumento do poema persiste na representação do luto não do amor enquanto experiência impossível, mas na não-crença deste como algo final, como se o encontro amoroso restituísse cabalmente o Um do banquete platônico. Não há esperança no símbolo, no outro, nas instituições: apenas em si é que se pode construir uma campânula de repouso. Penso ainda que essa enunciação, posta logo de saída em seu primeiro livro, é o que ao lado do verso livre (sua grande prerrogativa) tornará possível a sua obra que é inteiramente calcada na travessia de fantasmas, na superação das mais diversas ilusões e no assumir do nosso destino irremediavelmente solitário. Trago abaixo, juntamente com a transcrição do poema, a luminosa versão cantada por Cláudia Riccitelli, arranjada e tocada pelo pianistas Nahim Marun, gravados no CD Água de Fonte (uma das melhores aquisições de minha CDteca).



Cantiga do Viúvo

“A noite caiu na minh’alma,
fiquei triste sem querer.
Uma sombra veio vindo,
veio vindo, me abraçou.
Era a sombra de meu bem
que morreu há tanto tempo.

me abraçou com tanto amor
me apertou com tanto fogo
me beijou, me consolou.

Depois riu devagarinho,
me disse adeus com a cabeça
e saiu. Fechou a porta.
Ouvi seus passos na escada.
Depois mais nada…
acabou.”

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Sobre Pedro Gabriel

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2 respostas para A Pedra e o Viúvo

  1. Viviane disse:

    Pedrinho, ótimo texto!
    Ótima análise. Gostei tbm da sua forma de dizê-la.

    Bjos.
    Vivi.

    • Pedro Gabriel disse:

      Vivi, agradeço a presença, a leitura e o elogio. Drummond tem ocupado um espaço cada vez mais importante em minha vida e acho que essas coisas estão se tornando cada vez mais claras também para mim e a interlocução ajuda a depurá-las, a amadurecê-las em mim. Obrigado então também pelo auxílio à maturação.

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