Cartas, Telegramas e outras Memórias

Organizando minha velha caixa de correspondência redescobri que, até a invenção de e-meio (o meio virtual composto por emails, blogs, microblogs, redes sociais e demais recursos que simulam uma proximidade que é, no máximo, meia) alguns dos eventos fundamentais da minha e de muitas vidas foram prenunciados por carta e anunciados pelo grave telegrama. Desde os dez anos que me meto a missivista sem tanto talento a sê-lo. Para escrever uma carta de papel nunca foi necessário talento literário, mas abertura de espírito e coragem para enfrentar uma folha em branco de papel que em princípio ensejaria devorar nossa vida, despojamento para que pequenos pedaços tomassem o espaço de um envelope e viajassem céleres de uma à outra vida. Agora enquanto escrevo nessa mídia herdeira dos antigos envelopes de borda patriótica onde se escondiam infortúnios e efusividades recordo bem de como era missivar ou bilhetar à moda antiga: cartas eram pretendidas e pensadas e rascunhadas e passadalimpadas e acabadas e envelopadas e seladas e despachadas e entregues por mão humana deixando uma ou mais impressões materiais ao transitar por cada um desses estágios. Tocando uma carta entendíamos sua história de composição e, nela, o tipo de relação entre remetente e remetido expressos na textura, peso, cor, qualidade e mesmo no cheiro do papel. Quanto à relação de ambos uma carta podia ser pequena, pesada, grande, bem acabada, formal, cheirosa, gorda, fedida, amassada, engordurada, datilografada, colorida, fechada às pressas ou à cadeado, minúscula, imponente, imprudente ou tantos e infindáveis predicativos que as qualificava. Carta à moda antiga era coisa com (insisto no que era pra mim o sentido mais premente) cheiro, cor, textura, sua manufatura podia custar de alguns centavos ao que hoje seriam algumas dezenas de reais. De todos os modos de correspondência, cartas e telegramas eram os únicos a carregar verdadeiras impressões digitais. Carta de papel é uma das coisas boas que o tempo levou (tal como as demais coisas) em nome de uma maior eficiência. Num tempo em que mais é quase sempre menos, pergunta-se pra que mesmo?

TELEGRAMA
(Por Carlos Drummond de Andrade)

“Emoção na cidade.
Chegou telegrama para Chico Brito.
Que notícia ruim,
que morte ou pesadelo
avança para Chico Brito no papel dobrado?

Nunca ninguém recebe telegrama
que não seja de má sorte. Para isso
foi inventado.

Lá vem o estafeta com rosto de Parca
trazendo na mão a dor de Chico Brito.
Não sopra a ninguém.
Compete a Chico
descolar as dobras
de seu infortúnio.

Telegrama telegrama telegrama

Em frente à casa de Chico o voejar múrmure
de negras hipóteses confabuladas.
O estafeta bate à porta.
Aparece Chico, varado de sofrimento prévio.

Não lê imediatamente.
Carece de um copo dágua
e de uma cadeira.
Pálido, crava os olhos
nas letras mortais.

Queira aceitar efusivos cumprimentos passagem data natalícia espero merecer valioso apoio distinto correligionáro minha reeleição deputado federal quinto distrito cordial abraço Atanágoras Falcão.

 

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Sobre Pedro Gabriel

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2 respostas para Cartas, Telegramas e outras Memórias

  1. Beth Almeida disse:

    Belíssima recordação, belo texto.

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