O Pavão de Rubem Braga e Os Bolsos Vazios da Crônica

A crônica é um gênero fundamentalmente brasileiro. Como qualquer outra coisa das que o mundo possibilita, é derivada de um modo próprio de organização humana. No nosso caso específico ela é fruto do descaso que historicamente mantivemos com nossos grandes escritores e poetas que, na impossibilidade de trocar poesia por pão, precisavam suar o cérebro vendendo textos para jornais a fim de equilibrar o combate mensal entre os ganhos e as contas (minimizando a vantagem que quase sempre levava a segunda das duas). A crônica é filha predileta das burras vazias dos poetas. Os bolsos virados pelo avesso, faziam com que autores profundamente existenciais como Paulo Mendes Campos, Drummond, Antônio Maria, Vinícius de Moraes e tantos outros fingissem momentaneamente dissipar-se da grossa tristeza da vida com seu sabor amargo de solidão (como leio num destes) para dar cabriolas nos jornais como um palhaço que diverte o público em troca de moedas.

As crônicas são feitas pra serem leves, divertidas. São um digestivo jornalístico que contrapesam as mortes, escândalos e guerras em escalas globais. Drummond, que cronicou diariamente por mais de 50 anos, garante: a crônica é um gênero menor. Estava inteiramente certo.

As limitações do gênero e o fato de seus autores estarem escrevendo impelidos por uma demanda prática (o fato incômodo de precisarem comer); de escreverem para um formato específico determinado pelos finados copy desks ; e o fato de esterem sempre correndo contra o tempo (com ou sem inspiração precisavam entregar determinado número de palavras todas as manhãs) não nos impediu de ter grandes cronistas. Imagino o privilégio que tiveram nossos avós de poder abrirem os jornais todas as manhãs e lá encontrarem textos diários de qualidade estética inequívoca de autores como Antônio Maria, Vinícius de Moraes, Quintana, Drummond, entre outros. O contexto em que surgiu o estilo não indica tampouco que não sejam possíveis epifanias por meio da crônica. Grandes coisas foram escritas em espaços reduzidos e nos mais variados estilos. O ser pode ser dito de formas diversas (garantem os pré-socráticos) e Aristóteles recheia sua poética de diversos estilos todos enunciadores da hybris coletiva. A crônica bem executada guada tesouros insondáveis e de todos o mestre cronista que é maior dentre todos os mestres é Rubem Braga (que reina na água, no fogo e no ar, para referir uma outra maestria igualmente literária).

Braga fez com a crônica o que Drummond fez com a poesia ou o que Machado de Assis fez com os contos. Sua obra é uma dessas espadas afiadas que talha a alma humana fazendo aparecer aquilo que esconde de sublime e sórdido. Por sob as máscaras que usamos para mentir sobretudo para nós mesmos jaz oculta uma verdade que a poesia evidencia em forma de dor e constrangimento. A boa poesia nos constrange, nos estranha, dá ao leitor o desespero de si. Por expressar na crônica (como nenhum outro faz nesse estilo) nossas paisagens interiores com nitidez e beleza esse autor recebe (com toda a justiça) o título de o poeta da crônica. É dele a amostra de beleza que trago abaixo:

————————————————————————-

O PAVÃO (Por Rubem Braga)

“Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.

Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.

Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.

Rio, novembro, 1958″

Texto extraído do livro “Ai de ti, Copacabana”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1960, pág. 149.  Agradeço ao Antônio pela lembrança.

A editora Record tem um belo volume com preciosas 200 Crônicas Escolhidas pelo próprio Rubem Braga e dispostas num elegante volume de leitura mais do que recomendada.

O link para a obra segue abaixo:

http://www.record.com.br/livro_sinopse.asp?id_livro=24261

Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas. 

Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.

Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.

Rio, novembro, 1958 


Simples e ternas. Assim são as lindas crônicas de Rubem Braga.

Texto extraído do livro “Ai de ti, Copacabana”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1960, pág. 149.  Agradeço ao Antônio pela lembrança.

About these ads

Sobre Pedro Gabriel

www.lituraterre.com
Esse post foi publicado em (... LITURAS PRÓPRIAS ...), Literatura, Mundo, vasto mundo..., Passagem das Horas e marcado , . Guardar link permanente.

6 respostas para O Pavão de Rubem Braga e Os Bolsos Vazios da Crônica

  1. Pingback: Achando o Amor | lituraterre

  2. Viviane disse:

    Olá, Pedro!

    Gentileza a sua me mandar o link deste belo post! Mande-me mais links…
    Concordo com o que vc diz sobre o Rubem Braga. E vc escolheu muito bem “a amostra de beleza”. Tbm postei no videbloguinho esta mesma amostra de beleza… Escolhemos a mesma amostra dele de beleza – coincidência! Tenho dele tbm um exemplar que considero um tesouro – e é – “Livro de Versos”. São poemas do velho Braga. Nele há o “SONETO” – uma das coisas mais lindas que eu li na minha vida:
    “Andamos em silêncio pela praia./ Nos corpos leves e lavados ia/ O sentimento do prazer cumprido./ Se mágoa me ficou na despedida/ Não fez mal que ficasse, nem doesse -/Era bem doce, perto das antigas.”
    Que coisa, não?
    Um abraço.

  3. Pingback: Breve história do trigo e da falsidade | lituraterre

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s